245$ Romance da Raposa 111$ Aquilino Ribeiro 222$ Portugal - Bertrand, 1989 333$ Literatura portuguesa - juvenil Digitalização: Fernando Jorge Alves Correia. Correcção: Ana Medeiros. Estado da Obra: Corrigida. Numeração de página: Rodapé. Número Total de Páginas: 176. Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destina-se unicamente à leitura de pessoas com deficiência visual. Por força da lei de direitos de autor, este ficheiro não pode ser distribuído para outros fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente. Badana da capa ARCA DE NOÉ III CLASSE MESTRE GRILO CANTAVA E A GIGANTA DORMIA Era uma vez uma abóbora-menina, muito redondinha, que saíra duma flor tão grande e tão linda que de longe parecia, pela forma, um cális, o cális de oiro por onde os senhores bispos dizem a missa, e, pelo brilho, estrela caída do Céu. HISTÓRIA DO MACACO TROCISTA E DO ELEFANTE QUE NÃO ERA PARA GRAÇAS Aquela companhia de saltimbancos trazia entre outros animais um elefante, uma girafa e um macaco. O elefante era o arreburrinho de todos... HISTÓRIA DO COELHO PARDINHO QUE FICOU SEM RABO O avô dos coelhos era um coelho pardinho, pardinho, da cor que ainda hoje têm os coelhos do monte, olhos verdes, orelhas de acelga a nascer e uma cauda felpuda e comprida, levantada em aspa...Badana da Contracapa HISTÓRIA DE Joli, CÃO FRANCÊS QUE BOA CAÇADA FEZ Era uma vez um cego que ia pela estrada fora, com o cão Joli, perdigueiro francês, à frente, preso por uma cordinha, não porque tivesse medo que lhe fugisse, mas para que o guiasse em sua escuridão... O FILHO DE FELÍCIA OU A INOCÊNCIA RECOMPENSADA Com a sua bolsinha de amostras às costas, tamancos ferrados trrape-trrape, carapuça na cabeça e quatro vinténs na algibeira, foi Pedro assentar praça. HISTÓRIA DO BURRO COM RABO DE LÉGUA E MEIA Era uma vez um burro, verdadeiramente cor de burro a fugir, rijo de cascos, fino de orelha, boa boca, com uma malha arruçada na testa que lembrava o malmequer e a estrela-domar. OBRAS DO AUTOR Abóboras no Telhado, crítica e polémica Aldeia terra, gente e bichos Alemanha Ensanguentada caderno dum viajante Anastácio da Cunha, o Lente Sentenciado vida e obra Andam Faunos pelos Bosques romance Arca de Noé, III Classe contos para crianças (com gravuras a cores) O Arcanjo Negro romance Arcas Encotradas estudos, opiniões, fantasias Aventura Maravilhosa de D Sebastião romance Os Avós dos Nossos Avós história A Batalha sem Fim romance Caminhos Errados novelas Camões, Camilo, Eça e Alguns Mais estudos de crítica histórico-Literária Casa do Escorpião novelas A Casa Grande de Romarigães cró nica romanceada Cinco Réis de Gente romance Constantino de Bragança, VII Vizo Rei da Índia história D. Quixote de la Mancha Cervantes Trad, 3 vols De Meca a Freixo de Espada a Cinta ensaios ocasionais Dom Frei Bertolameu legenda É a Guerra diário da conflagração mundial Em Prol de Aristóteles Ant de Gou veia Trad e prefácio Estrada de Santiago novelas Filhas de Babilónia novelas O Galante Século XVIII textos de Cavaleiro de Oliveira Geografia Sentimental história, paisagem folclore O Homem da Nave serranos, caça dores e fauna vária O Homem que Matou o Diabo romance Humildade Gloriosa romance Jardim das Tormentas contos Lápides Partidas romance Leal da Câmara vida e obra O Livro de Marianinha lengalengas e toadilhas em prosa rimada (com gravuras a cores) O Livro do Menino Deus O Natal na história religiosa e na etnografia Luís de Camões fabuloso verdadeiro ensaio O Malhadinhas novelas Maria Benigna romance Mónica romance No Cavalo de Pau com Sancho Pança, ensaio Novelas Exemplares Cervantes Trad e prefácio Oeiras monografia Por Obra e Graça estudos Portugueses das Sete Partidas Aventureiros, viajantes troca tintas Príncipes de Portugal suas grandezas e misérias história Quando ao Gavião Cai a Pena contos Quando os Lobos Uivam romance A Retirada dos Dez Mil Xenofonte Trad e prefácio Romance da Raposa romancinho Infantil O Romance de Camilo biografia e crítica, 3 vols S Banaboião, Anacoreta e Mártir romance O Servo de Deus e a Casa Roubada novelas Terras do Demo romance Tombo no Inferno - O Manto de Nossa Senhora teatro As Três Mulheres de Sansão novelas Um Escritor Confessa se memórias Uma Luz ao Longe romance A Via Sinuosa romance Volfrâmio romance OBRAS COMPLETAS DE AQUILINO RIBEIRO ROMANCE DA RAPOSA ILUSTRAÇÕES DE BENJAMIM RABIER BERTRAND EDITORA APARTADO 37 - AMADORA Todos os exemplares levam o sinete do autor (c) 1961, LIVRARIA BERTRAND S. A. R. L., Lisboa Reservados os direitos de tradução e reprodução 21.a EDIÇÃO Impresso na Tipografia Guerra, Viseu, Julho de 1989 Depósito legal n.º 26756/89 ISBN-972-25-0210-7 ANÍBAL: AS AVENTURAS MARAVILHOSAS DA SALTA-POCINHAS - RAPOSETA PINTALEGRETA, SENHORA DE MUITA TRETA - CONTEI-TAS, SENTADO TU NOS MEUS JOELHOS. CONTANDO-TAS, VEIO-ME IDEIA DE AS ESCREVER. ALÉM DE INSPIRADOR, COLABORASTE COM TEUS SILÊNCIOS, PERGUNTAS E INTERRUPÇÕES NA FRÁGIL MEADA QUE MAIS NÃO FOSSE, SÓ POR ESTE TÍTULO O LIVRINHO TERIA DE LEVAR O TEU NOME. AO PERCORRER ESTAS PÁGINAS, NOS TEUS OLHOS EM FLOR NÃO VIRÃO BRINCAR FADAS E DUENDES, BONS GIGANTES E PRINCESINHAS, TÃO-POUCO ANTE ELES SE ERGUERÃO AQUELES PALÁCIOS ENCANTADOS, QUE POR SEREM DE OURO E PEDRAS FINAS, CONCEBIDOS PARA SATISFAZEREM A TODOS OS DESEJOS, TÃO DIFERENTES SÃO DOS DA TERRA QUE QUERES, No REINO DOS BICHOS NÃO HÁ NADA DISTO, NUNCA HOUVE O DOCE MUNDO DE ILUSÕES, QUE O HOMEM CRIOU, RESERVOU-O PARA FIGURANTES, RISCADOS, SIM, PELA FANTASIA, MAS SEMPRE À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA. OS CHAMADOS IRRACIONAIS ALI NÃO TÊM ORDEM DE ENTRAR. EM HARMONIA, POIS, COM AS LEIS DA POESIA E DA CEÊNCIA NATURAL, NÃO FIZ DA RAPOSA PRINCESINHA PERSONAGEM HISTÓRICA, PARA MAIS, ERA MEU DEVER NÃO FALSIFICÁ-LA. REPRESENTA, TAL COMO VEM DA FÁBULA, NO GUINHOL COM OS OUTROS BICHOS, A TODOS OS QUAIS DEI VOZ, COM LICENÇA DE MESTRE ESOPO E DEI-LHES VOZ PARA MELHOR MANIFESTAREM O QUE SÃO, E NUNCA PARA COM ELES APRENDERMOS A DISTINGUIR BEM E MAL, APARÊNCIAS OU ESTADOS, POUCO IMPORTA, ATRIBUÍDOS EXCLUSIVAMENTE AO REI DOS ANIMAIS, COMO NOS JACTAMOS DE SER. SE AO FIM DE CADA JORNADA BATERES AS PALMAS, DAR-ME-EI POR LARGAMENTE RECOMPENSADO. BASTA QUE TE RECREIES, COMO NO JARDIM ZOOLÓGICO, PARA AMBOS NÃO PERDERMOS O TEMPO. AÍ FICA, MEU HOMEM, NO TEU SAPATINHO DE NATAL ESTA PEQUENA PRENDA. ACEITA-A COM OS MEUS BEIJOS DE PAI, QUE AO MENINO JESUS VOU PEDIR PERDÃO DO PECADO, POIS QUE A RAPOSA É MATREIRA, EMBUSTEIRA, RATONEIRA, E ELE APENAS COSTUMAVA BRINCAR COM POMBAS BRANCAS E UM BRANCO E INOCENTE CORDEIRINHO. S.To AMARO DE OEIRAS. NATAL DE 1924 PRIMEIRA PARTE A RAPOSINHA I Havia três dias e três noites que a Salta-Pocinhas - raposeta matreira, fagueira, lambisqueira - corria os bosques, farejando, batendo mato, sem conseguir deitar a unha a outra caça além duns míseros gafanhotos, nem atinar com abrigo em que pudesse dormir um soninho descansado. Desesperada de tão pouca sorte, vinham-lhe tentações de tornar para casa dos pais, onde, embora subterrânea, a cama era mais quente e segura que em castelo de rei, e onde nunca faltava galinha, quando não fosse fresca, de conserva, ou então coelho bravo, acabado de degolar. Mas temia-se da mãe que ao cabo duma semana de fome, depois do assalto frus- 13 trado à capoeira dum lavrador em que vira a morte a dois passos, lhe atormentara o juízo com advertências e bons conselhos: - Salta-Pocinhas, minha filha, tens de procurar outro ofício. Comer e dormir, dormir e comer também eu queria. Olé! Se ainda o não sabes, fica sabendo: quem não trabuca não manduca. Mal entre a lua nova - e não tarda a hora que chegue às portinhas do céu - estás na idade de te conduzir por tua cabeça. Também já te lá cantam dezoito meses, e dezoito meses nada ladros, louvado seja o pai dos bichos. É olhar-te para as navalhas dos dentes e a boa saia de peluche. Uma riqueza! - Ih, ih, ih! - desatara a Salta-Pocinhas a choramingar. - Santa aciência! Teus irmãos por aí andam ganhando o pão, sabe Deus com que trabalhos! O Pé-Leve saiu um azougue de finura... - E bom filho! Estava ontem a gineta a fazer -lhe um rasgadíssimo elogio - disse o pai velho, um raposão de rabo pelado, ao tempo que se espreguiçava entesando e voltando a entesar um longo e descarnadíssimo pernil. 14 - Pudera! Foi ele que bifou ao padre-prior o rico galo galaroz, crista de vermelhão e pernas de retrós. Comemos nós, comeu a gineta e, cem anos que eu viva, não me hei-de esquecer do fartote. Coitado, o Pé-Leve emancipou-se há já umas semanas. A ti, Salta-Pocinhas, guardámos-te mais tempo connosco, esperando que nos servisses de arrimo para o fim dos dias. É negócio arrumado se tratares de ti, já nos damos por contentes. Pronto, deitaste bom corpo, arranja-te, arranja-te! rara baronesa não nasceste... - O mundo vai mal! O mundo vai mal! - emitiu o raposão em tom pessimista. - Quem houver de levar a vidinha segundo as regras do amor ao pêlo precisa de lume no olho. Sim, senhora! Hoje em 15 dia, assaltar uma capoeira é um problema difícil de matemática... - Estou velha... caduca - tornou a mãe, sem fazer caso da filosofia do raposo. - Não te posso manter, ainda que quisesse. Há coisa de dias um cãozito bem reles, um destes totós que não prestam para mais nada que para soltar o béu! béu!, deitou a correr atrás de mim e por pouco que não me rasga a fralda. O toirão que diga. Teu pai, depois que apanhou a chumbada nas pernas, está o que para ali se vê: um entrevadinho, um borralheiro, incapaz de pegar um caçapo a dormir a sesta no covil. Aquelas palavras não eram ditas, rompera o pai raposo a maldizer do bicho-homem e da danada invenção das armas de fogo. E, depois de muito praguejar e de muito chorar a má estrela, foi levado, como estava em seus hábitos de velho impostor, a fazer grande alarde da ligeireza e coragem que possuíra nos bons tempos, quando estafava um galgo na carreira. Mas a mãe raposa mandou-lhe calar a caixa, ao ver que no galho dum freixo, por cima deles, se viera empoleirar mestre Vicente, o corvo, com ar trocista a desfrutar o gabarola. O pai raposo, embora entrevadinho, rompeu a fazer alarde das suas façanhas. Mas a mãe raposa, ao ver o ar trocista de mestre Vicente, só com assestar' no seu velho aquele olhinho torvo que gelava as galinhas nos poleiros, fechou-lhe a boca. E a Salta-Pocinhas continuou a ouvir-lhe os conselhos de velha sábia, doutora em lábia. - A serra é grande e farta - prosseguiu a mãe raposa, mão erguida em gesto de bom conselho - e a mata onde moramos o mais sossegada que se pode esperar do bicho-homem, que é caprichoso e tanto nos faz guerra como nos deixa em paz. Aldeias por estas redondezas não faltam e, ouve, rara é a noite, muito rara, em que uma dona de casa se não descuida de tapar o buraco da capoeira. O monte também é mimosinho de carnes: coelhos, lebres, perdizes, e toda a casta de passaredo, bichos, é certo, leves de perna e ágeis de asa, que exigem olho matreiro, pé sorrateiro e galfarro ligeiro. Mas estas boas qualidades tem-las tu, Salta-Pocinhas, temo-las nós todos, e, graças! senão, ao mal que nos querem, tinha-se acabado há muito a espécie raposina. A questão é ir desencantar os poleiros que ficam abertos e descobrir por esses bosques o sítio onde lebres e coelhos têm a roupa, como diz teu pai por chalaça. - Ralé! - exclamara de lá o velho raposo. - O que se precisa é ralé, o mais são histórias. - Sim, ralé, como quem diz: génio e paciência. Já rezava um tio meu, que acabou de velho com dez 17 anos no pêlo e fama de sabedoria, que a ralé, na nossa raça, é a mãe de todas as virtudes. Sejas tu diligente, prudente, persistente, e verás como a vida te corre direita. Vai, e que a minha bênção te cubra! - Nos dias de abundância, lembra-te dos velhos pais, Salta - Pocinhas! - gemeu o raposão, com a lágrima no olho. Assim lhe haviam falado pai e mãe, e, porque era briosa e com boa memória, a raposeta, não obstante o jejum, as fadigas e as saudades, tinha vergonha de voltar à cova natal. Fechara a noite, mas por cima dos altos pinheiros bailava a lua cheia, muito bochechuda, ainda que enfarruscada. E quem a enfarruscava eram as nuvens que iam passando e peneirando uma chuvinha miudinha molha-tolos, que a ela molhava por necessidade, que não por tola. O pior é que já levava encharcados os botins amarelos e a saia de açafrão. Cheirando aqui um provável rasto, furando além por uma brenha, por muito breve que fairasse, por mais subtil que andasse, giestas, urgueiras, pinheiros novos sacudiam-lhe o rocio para o focinho, brincadeira dispensável. Cuidadoso e lesto era o seu caçar, tão cuidadoso e lesto 18R que não chegava a acordar o chão em que punha o pé, mas lá de descobrir láparo embezerrado no meio dum tojo, rã a coaxar no charco, besouro, que fosse, a tocar o rabecão, andava com tão pouca sorte que nem que a tivessem enguiçado olhos de feiticeira. Gira que gira, encontrou-se com o irmão Pé-Leve, o tal experimentado caçador e ratoneiro. Depois de trocarem as cortesias de uso, disse-lhe a raposa: - Mano, ando a cair de debilidade... - Mana, há oito dias que jejuo. Ouvi dizer que o teixugo Salamurdo pilhou pata. Vai-te lá, que é esmoler - e o raposo, sem mais obséquio, rodou à vida. - Nossa mãe mandou-me vir ter contigo. Que nunca te faltaria a asinha dum frango para dar... Já a não ouvia o danado salteador. Continuou a Salta-Pocinhas a buscar com que 19 iludir a fome, à falta de melhor, esses insectos e pequenos répteis que não enchem boca e apenas são bons para estômagos em dieta. Mas quê?! Lagartos, lagartixas, cobrinhas pretas, grilos, ralos, abelhões só de dia saem aos terrados e precisam de sol, os que são músicos, para cantar, e os que o não são, para dormir. Depois, já o verão ia fora e os mais deles preparavam a toca para hibernar ou a sepultura para morrer. Ao voltar duma vereda, avistou a fuinha debruçada da lorga dum velho castanheiro - seu solar - toda casquilha, casaco castanho, blusa branca, luvas escuras de camurça com pesponto amarelo. - Priminha - lamuriou a raposeta - há três dias que não provo migalha... - Deus se lembre das minhas faltas, amiga! - Ouvi dizer que o teixugo Salamurdo pilhou pata... Onde habita o felizardo? - Além fora! - e, depois de lhe apontar a direcção, luzidia, bravia, esguia como enguia, saltou do mirante e aos pulinhos, espevitada, desapareceu no matagal. Seguiu Salta-Pocinhas a rota indicada, rabo do 20 olho à direita, rabo do olho à esquerda, em cata de biscato que trincar. E, ao bulir numas urzes secas, ouviu um bufar assanhado. - Ah! é você, seu gato bravo? Gente de paz, não tenha medo. - Então passe de largo - respondeu de olhos a fuzilar, pêlo hirsuto, o arguto malfeitor. - Ouvi dizer que o teixugo Salamurdo pilhou pata... - Se pilhou pata ou pato é com ele. - Ó animal ferino, mofino, ventas de pepino, não vale a pena zangar. Somos todos irmãos. - Não vale, mas por causa de você, sua atrevida, não apanhei o noitibó que aqui andava a cirandar. - Eu vou-me, eu vou-me; mas diga-me, por favor: onde mora o teixugo Salamurdo? - Vá ao direito do nariz; não erra légua-da-póvoa. A raposinha virou costas ao malcriado, encolhido por detrás dum tronco, à espreita dos noitibós, que, voando, descrevem no ar grandes "ós". Andando, andando, lobrigou num souto, sob a aba dum velho castanheiro, fantasma tão medonho 21 que se lhe puseram os pêlos no ar. Mas, afinando-se bem, soltou a sua risadinha. Quem ele era, plantado sobre as patas, olhos pequenos, pardos e redondos como baga de loureiro, orelha esperta, héctico e peripatético, pois que andando fraquinho e fugido à revelia não parava em nenhum lugar?! Quem era, com a argola de ferro ainda na venta? O virso sábio dos saltimbancos. Divertida por um lado, na esperança, por outro, de tirar algum benefício do encontro, a Salta-Pocinhas foi para ele, mas não tão confiada que não deixasse de permeio campo farto, se preciso fosse, para pular: - Ora viva o tio Mariana! Então a tomar o fresco da noite? - Seja bem-vinda a minha flor. Ando a ver se os castanheiros já botam. Qual, os ouriços começam agora a arreganhar!... Não apanho castanhas para a cova de um dente. - Porque não trepa arriba? - Éo tronco muito grosso, não o posso abraçar. - E essa bizarria? - Como há-de ir um pobre desterrado?! - Acho-o mais gordo... 22 - Olha, filhinha, foi o tempo das searas, do mel, das uvas, tirei o ventre de misérias. O que me mata é o sobressalto em que vivo. Não se me passa do juízo que, mais dia menos dia, meu amo, aquele húngaro de má morte, aparece por aí e me torna a pegar à ideia de que ainda voltarei a ouvir-lhe a voz rouca: Dança, la ursa! e eu com um pau nas mãos, bailar, bailar ao som do pandeiro e do pífaro para divertimento dos basbaques, nem o comer me faz préstimo. - Coitadinho! Pelos vistos, passadio de magro?... Já não vai a sua postinha de carneiro? - Nem me lembra que comesse carne. Habituei-me com meu patrão ao regime da quaresma, não é isso que me rala. - Consta que o tio Mariana enterrou para aí metade dum jumento...? - Que trapaça! Pusesse-lhe eu as unhas em cima, que o não deitava fora, não. É sabido que eu comer de tudo, como. Já o húngaro maldito, para se desculpar de me dar só ervas e broa dura, dizia que eu era omnívaro. Carne, quem a dera! - Pois é pena! Ando a morrer de fraqueira. - Atira-te às ervas... 23 - Não se me dão com o estômago; fazem-me azia. Ouça, tio Mariana, não é capaz de me ensinar onde mora o teixugo Salamurdo? - O teixugo Salamurdo... O teixugo Salamurdo... Não conheço. - Então adeusinho! Por aqui me vou... - Nem um abraço me dás? - Um abraço, tó-rola! Abraço de urso, já dizia Salomão, é pior que beijo de cão. Não tente... - Hás-de ser outra velhaca, desconfiada como tua mãe. Pois Salamurdo não conheço... Mas espera lá... É um bicho ronceiro, passeiro, mazorreiro, perna cambada, na testa faixa esbranquiçada? Então se é, mete por esse atalho fora, sempre em frente. Ao fundo torce à esquerda; onde vires um carvalhal torna à direita e, obra de cem passos a nascente, dás com o castelo do tal Salamurdo, que pelo nome não perca. Não tem que errar. - O tio Mariana, para ser cavalheiro, vinha ser meu guia. Juro-lhe que não perde o tempo... - Não, que está a levantar-se um ventinho e vão cair aí castanhas que é um maná. 24 - Ai que impostor! Caem ou não caem...? Mariana cantarolou: - Da banda de lá do rio Tem meu pai um castanheiro; Dá castanhas em Agosto, Uvas brancas em Janeiro. A raposeta rodou por ali fora, veloz, subtil, repetindo a lengalenga com receio de se enganar no caminho. Ao cabo da vereda, involuntariamente, volveu olhos para trás. Lá continuava o urso sábio, de plantão, cabeçorra erguida - à espera que lhe caíssem as castanhas do céu - negro, monástico, estático, como eremita a rezar. 25 26 II Tilintava a chuva nas folhas das árvores, uma chuva miudinha, branquinha, dando ideia de farinha peneirada pela Lua, que ora aparecia deslavada por cima dos altos pinheiros, ora desaparecia carrancuda detrás das nuvens a galope. Ainda cheirava ao mosto dos lagares e já se sentia o inverno no seu cavalinho manco e branco a tropeçar. Esfalfada, tendo perdido o rumo que lhe traçara o urso sábio, a Salta-Pocinhas trotou, rastejou, sondou aquela grande mata de lés a lés. E já descorçoava quando chegou ao alto onde havia uma cova de bicho, com portaria cavada sobre o redondo no toro dum velho carvalho, terreirinho à frente para gozar o fresco ou a soalheira, frestas para respirar, 27 e porta falsa, à retaguarda, para dar às de vila-diogo se o fossem acometer. A Salta-Pocinhas, como o olfacto lhe certificasse que estava diante do solar do teixugo, chamou à porta: - Ó da casa! Ó da casa! Esperou, tornou a esperar e ninguém lhe respondeu... - Ó da casa!... Sou eu, a comadrinha raposa, meu rico senhor D. Salamurdo! Sou eu! O mesmo silêncio, o mesmo céu baço e a chuva impertinente a rufar na folhagem a igual, irreal cantiguinha. - Ando negra de fome... Por alma das suas obrigações, dê alguma coisinha! - gemeu no tom mais lamúrias que soube achar. Não buliu, porém, vivalma naquele castelo de alta fidalguia... Tornou ela a carpir-se: - Ouvi dizer que Vossa Senhoria pilhou pata... Sou a Salta-Pocinhas, sua amiga leal, verdadeira! E mais uma vez a súplica se perdeu no silêncio da terra e do solar adormecido. Em tom provocante, furiosa, gritou, então, à entrada do corredor: 28 - Pai teixugo, narigudo, barrigudo, alma de besugo, larga a jata! Larga a pata!... a pata!!! Mas nem injúrias, nem lágrimas, nem rogos conseguiram despertar o morador. Passaram-se minutos, e a raposinha tentada, vai e não vai, a arremeter por ali dentro, à ventura, fosse o que Deus quisesse. D. Salamurdo, porém, tinha garras de aço que apertavam como turqueses, dentes possantes que uma vez ferrados não abriam mais, e acobardou-se. Dando voltas ao entendimento sobre o que havia a fazer e não fazer, lembrou-se de ir espreitar pela clarabóia. Oh! lá estava o maganão no jaquetão cor de café, topete e peitilho alvos de neve, rolado em macio musgo e folhas secas! Depois de admirar a gordura do nababo e o conforto do aposento, a raposeta, pintalegreta, senhora de muita treta, tornou a gemer: - Ó meu rico senhor, tenha dó! Ando mirradinha de fome! Já nem me recorda que engolisse um escara velhinho... O bicho não respondeu; mas, sempre à espreita, viu-lhe a Salta-Pocinhas abrir as pálpebras, sacudir as orelhas, soprar, fungar, coriscar lume das pupilas 29 verdes, dando em tudo sinal de incomodado. E renovou a cantilena: - Ó meu rico senhor! - Qual rico senhor, nem qual diabo! - regougou afinal D. Salamurdo. - Não tenho nada que dar, mas, tivesse eu galinhas ou patas aos montes, sob pena de para aí apodrecerem, não eram para você que vem empestar-me a casa. Apre, quando tiver de pedir esmola a portas de certa teoria, lave-se primeiro, trate de desencardir-se da catinga, que fede à légua! Grandemente se sentiu a raposinha com tão cruel descompostura. De sobra sabia ela que o teixugo é bicho muito limpo e asseado, e que a outros que tais, como o almíscar, fadou a natureza tão bem cheirosos que estar ao pé é apanhar uma dor de cabeça. Não lhes invejava a prenda. Bicho ganhão, bicho labregão. Não era desonra pertencer à ralé, nem faltarem-lhe costados de fidalguia. Mas cheirar mal, ser assim fedorenta, ofendia-a na ideia que concebera dos seus agrados, mocinha airosa, briosa, graciosa que se julgava. E por vingança, por pirraça, mais se debruçou à janela a ganir a cegarrega. 30 Ouviu-a o teixugo Salamurdo, ouviu, tornou a ouvir, até que cheio de razões correu fora para castigar a entremetida. Mas ela esgueirou-se a tempo. Tornou ele ao quarto de dormir, reapareceu ela ao postigo: - Teixugo narigudo, barrigudo, alma de besugo, larga a pata! Postou-se no alpendre Salamurdo, de emboscada a ver se lhe podia chegar ao pêlo. Por trás da árvore, de soslaio, negaceava com ele a comadrinha. Volveu o bicharoco a recolher-se, e logo ela, à portinhola, a ladrar: - Larga a pata! - Que trabalhos os meus! - exclamou D. Salamurdo. - Larga a pata! Larga a pata! - Larga a pata?!... A pele hás-de tu largar-me nos dentes, se algum dia te caço a jeito! Descarada, celerada, enjeitada de chacal! - Larga a pata! - Chegou-se a uma época, com seiscentos moscardos! 31 em que a gente já nem segura está na sua casinha. Vem o mariola e enxovalha-nos vem o ladrão e rouba-nos. Não há ordem, não há nada! - Larga a pata! - Não calas a sanfona? Então deixa, minha ladra, minha saca de mentiras, que vais ter o pago. O vizo-rei há-de sabê-lo ainda hoje. E ele, que não é para brincos, dá-te o catatau! O Salamurdo, dizendo isto, saiu de rompante, furioso, a queixar-se, se a ameaça era verdadeira, ao lobo D. Brutamontes, vizo-rei daquelas selvas e penedias. A raposinha viu-o ir e considerou: - Se só o meu cheirete te causa tantos engulhos, eu te ensino. Tenho fé que doravante não dormirei mais ao sete-estrelo. E delambida, atrevida mas precavida, fusgando à direita, fusgando à esquerda, não houvesse ali cilada, entrou na cova do teixugo. Percorreu-a de ponta a ponta: comer, de grilo! Adiante: foi-se à cama do maganão, de fofo musgo, deliciosa para dormir e sonhar, e sem vergonha, não só por acinte, mas também com ronha, estirou-se, rolou-se, espojou-se. E isto feito e outras coisas mais, crente que o cheira 32 do seu corpo afugentaria para todo o sempre o esquisito senhor, regougou de alegria. E a furta-passo, mais silenciosa que se calçasse alpargatas de ladrão, nariz à flor da terra a tomar os ventos, meteu na peugada do teixugo, que ia levar queixa ao vizo-rei. As pernocas curtas, o andar saltitante não permitiam a D. Salamurdo marchar ligeiro, e breve o lobrigou numa vereda do mato. Lá ia ele tupa-tupa, com a sua trouxinha às costas, como romeiro que vai para a romaria ou aventureiro a emigrar. Na trouxa, à certa, levava peita com que ganhar as boas graças do vizo-rei, por lá os quartos da pata, se não era fá bula ter pilhado caça de tanta estimação. E pé ante pé, aqui se agacha, além rasteja, a raposa foi-o seguindo algum tanto preocupada já da cólera do lobo, que era tirano sanguinário. Ficava o Paço num barrocal, entre penedos, penedos tão grandes, tão feios e tão a cavalo uns nos outros, que nem no céu nuvens de trovoada. À força de voltas e reviravoltas, sempre arriba e mais arriba, sempre puxando à perna, custaria a bater lá direito, mas D. Salamurdo, que era cortesão, conhecia aquele caminho de olhos fechados. Chegado à boca duma caverna, 33 pedra por baixo, pedra por cima, pedra por todos os lados, o teixugo estacou. Desceu a mochila das costas, limpou o focinho à manga da vestia, lambeu-se, cofiou os bigodes. E depois de tossir baixinho, adiantando-se dois passos, chamou em tom brando e adocicado: - Ó meu senhor!... meusenhor! - Quem vem a esta hora com um tempo excomungado importunar Minha Grandeza? - urrou de dentro Brutamontes. - É o teixugo, senhoria; é o teixuguinho Salamurdo, vosso leal servidor. - Entre o meu leal servidor. Devo avisá-lo de que o meu estado de saúde me proíbe dar-lhe audiência demorada... A raposa coseu-se com a fraga, avançou sorrateira, estendeu o pescoço, fitou a orelha e, fechando um olho para melhor ver do outro, pôs-se à coca. E viu e ouviu. Depois das zumbaias e do beija-mão, 34 o vizo-rei deu conta a D. Salamurdo das muitas dores que o frigiam e eram nos queixos, salvo seja. De facto, devido a dente podre, erisipela, fleimão ou quer que fosse, tinha um emplastro na queixada, emplastro que lhe tornava mais medonha a carantonha. E, uivando de desespero, dizia: - Dava tudo que há no mundo para ter aqui um cirurgião! Ui! ui! O teixugo Salamurdo prontificou-se a ir chamar Mariana, o urso fugido aos saltimbancos, que, se alcunha de urso sábio não mentisse, devia meter a sua colherada em medicinas. - Consta-me que há para aí umas raposas entendidas... - observou Brutamontes. - Ora, ora, meu senhor, as raposas são uma corja de invencioneiras, trapaceiras, e disso não passam. Contra uma dessas desenvergonhadas até me vinha eu queixar. - Algum agravo te fizeram, Salamurdo? - Saiba Vossa Mercê que eu vinha pedir providências 35 contra uma tal Salta-Pocinhas que me não deixou dormir em paz esta noite. Vossa Mercê deve saber: aquele mal-intencionado bicho fede que tresanda. Foi-se-me para a janela e tanto se espenujou, tanto se esfregou, tanto cabriolou, que o ar dos aposentos, à força de receber as emanações do traste, se tornou irrespirável... Em consequência, venho pedir a Sua Mercê o vizo-rei que proíba à Salta-Pocinhas e a qualquer outro indivíduo da mesma família de se acercar da minha casa. Quando não... - Quando não, quê? - Quando não, embora tal propósito muito pese aos sentimentos que me animam para com Vossa Senhoria, terei de mudar de residência. E, a mudar de residência, retiro-me para outra província onde não sucedam estes desaforos aos honestos e pacíficos cidadãos. O lobo ouviu e, depois de pequeno intervalo em que se encheu de uivar e apitar com dores, disse para o burguês: - Precisava as orelhas cortadas quem assim se me dirige com tanta rópia. Mas prefiro ser passa-culpas; lá de cometer abusos de autoridade não me 36 hão-de acusar. Traze-me cá a raposeta; traze-ma cá a bem ou a mal. Mas antes, vai-me chamar o urso sábio. Se me põe fino, tem todos os dias, enquanto vivo for, um lombo de cabra ou de carneiro; e tu conta com o viscondado. - Muitas graças, meu senhor, muitas graças. Agora, se Vossa Mercê dá licença... Se Vossa Mercê dá licença, peço-lhe para aceitar a fraca lembrança que vem neste embrulhinho: são umas bolotiuhas para a sobremesa, as primeiras que caíram do carvalho à minha porta... carvalho que carrega que é um louvar e é muito temporão. - Não valia a pena estares-te a incomodar, Salamurdo! Não valia porque, deixa-me ser-te franco, gosto pouco de bolotas. Para mim bolota, só com grande larota. Em suma aprecio muito a delicadeza, mas lá bolotas, como pão-de-ló, come-as tu e tua avó. - Haja de desculpar! - grunhiu o teixugo, tartamudo. - Tivesse eu pilhado pata, como se me fartou de buzinar aos ouvidos a raposa, que lha trazia da melhor vontade. - Carne, aí, não falta. Vês tu? Na tua frente metade dum bezerrão, além a fressura dum cordeiro. 37 Viste? Bem, põe-te a andar... e vai-te num pé e volta noutro. - Vou, meu senhor, vou. Uma corça não correrá mais veloz! O teixugo rodou esbaforido e a Salta-Pocinhas pelo que viu e ouviu, ficou irresoluta, a reflectir, como jogador que tem duas pedras na mão e não sabe qual há-de jogar. Dentro daquela lapa havia a fressura dum borrego, a contar mais a falta dum curandeiro e a sanha e bestidade de Brutamontes; cá fora, chuva e mais chuva, a manhã que não vinha longe na casa de Pilatos, e o teixugo descaroável i armar-lhe à perdição. Além disso, sentia cada vez mais as torturas da fome, como se um cão estivesse a roer-lhe as entranhas; sentia, também, grande raiva contra o egoísta do Salamurdo, ao qual não era certo, certo, haver com o seu ardil expulsado da toca. Por isso, desenganada, a tudo perder ou ganhar, a Salta-Pocinhas bateu à aldraba da pavorosa moradia. Veio o lobo ao limiar com tal arreganho, com tais rugidos que a raposinha disse mal da cardada. 38 Cobrando porém ânimo, proferiu, untuosa, dengosa, em sua melhor prosa: - Informou-me minha prima fuinha que Vossa Mercê passava grande incómodo. Vinha saber da sua preciosa saúde e oferecer os meus préstimos. - Estou, estou muito mal desta queixada - e D. Bruta- v montes, tirando o emplastro, apontava a face, tão bochechuda tão disforme que nem que trouxesse meia caraça de carnaval. - Anjo bento, anjo bento, isso foi ar que lhe deu. Chame-se à milagrosa virgem Santa Apolónia, advogada no mal de dentes e enfermidades do rosto. Chame-se a ela, meu senhor, que eu também lhe vou rezar para que se digne aliviá-lo de dores tão infernais. Ave-Maria, cheia de graça... - Não conheces nenhum remédio, raposinha? - Sim, meu senhor. Minha avó, que já lá está, foi um dia chamada ao ilustríssimo pai de Vossa 39 Mercê, por causa do dente do siso que se tinha derrancado. Pelos vistos, é achaque de família. - E que lhe receitou? - Olhe, meu senhor, quer que lhe diga? mandou-lhe pôr sobre o carão, na parte dorida, a pele dum teixugo; mas a pele dum teixugo ainda quente, acabadinha de esfolar... - Ah! - Foi remédio abençoado, melhor que o boticão! O ilustríssimo:ai de Vossa Mercê ficou livre da mazela para nunca mais. Pôs-se o lobo a malucar e a raposinha a fazer com os olhos o inventário da casa. E o seu coração palpitou ao descobrir, além dos dois quartos do vitelão, os miúdos dum borrego, sumptuosos de gordura e de tamanho. - Minha avó - murmurou em voz compungida - tirou o curso de médica nas Universidades. Remédio seu era bálsamo santo. Nas horas vagas, lá nos ia ensinando uma ou outra receitinha... - Comadre - exclamou o vizo-rei, de rebentina - não encontraste o teixugo Salamurdo? - Saiba Vossa Mercê que, de caminho para 40 (Página com extratexto entre a 40 e a 41.) Aqui se vê a Salta-Pocinhas a aconselhar ao vizo-rei, como remédio para o mal que o apoquentava, a pele do texugo. Está bem de ver que o seu fim era erguer o cadafalso ao inimigo. Lobriga-se, ao canto, o espinhaço dum bezerro e, a meio do pinhal, mestre coelho, todo finório, a escutar o palanfrório. (Fim do extratexto) Paço, avistei um vulto acalchinado a desaparecer ao longe. Seria D. Salamurdo? Não seria? Lá que me pareceu narigudo, barrigudo, com calçotes de veludo, não tenho dúvidas de o jurar... - Era ele, não podia ser outro. Que caminho levava? - Parece-me que virado ao Norte, mas, meu senhor, sou fraca em orientação... - Raposa, vou buscar o tal "remédio abençoado". Agora ouve. Se faço despir da roupa que traz vestida o meu nunca assaz chorado servidor e o remédio não surte efeito, conta que também te arranco a pele e a mando de presente ao Grupo dos Zés para talharem boldriés. Não arredes daqui, que me hás-de fazer o curativo. O lobo despediu pós-catrapós à cata do asseado e belo senhor. A Salta-Pocinhas correu à fressura, imolou-a em três tempos, e quedou-se, sentada sobre os quadris, enquanto espevitava os dentes, a malucar nas voltas da fortuna. Depois, trejeitando uma pirueta, focinho em riste, orelhas guichas, pé ante pé, por desacostumado trilho, aventureira, faceira, prazenteira, meteu para o solar do teixugo - o seu solar. 41 42 III Naquela manhã de chuvisco e vento arisco, a raposeta dormia um sono regalado na toca do teixugo - agora a sua toca - quando breve ruído a fez desenovelar e logo pular como mola ao escapar. - Sou eu, Salta-Pocinhas! Sou eu, tua mãe, não te assustes! - dizia à sua beira a velha raposa. - A esta hora, é novidade...!? - E bem ruim, filha: estás condenada à morte. O lobo Brutamontes culpa-te do assassínio do teixugo Salamurdo, dum roubo de fressura e de traição e má fé para com a sua alta senhoria. Verdade ou calúnia, não te queria estar na pele. Já andam deitando bando por esses bosques... - Deitando bando... Oue é isso? 43 - É a sentença que o lobo deu contra ti, lida nos lugares públicos, em alta voz. Se tens ânimo, vem por aí fora e ficarás sabendo. Puseram-se as duas a caminho pelos sítios da mata menos trilhados e não tardou que, numa clareira, avistassem grande multidão de bichos. Lá estavam, em grupos, as temíveis ginetas de farda casquilha e cauda em cedilha; os toirões papa-coelhos, de olhos vermelhos; o gato bravo malfeitor e a fuinha com gravatinha de neve e rabo em espanejador. Lá estavam os javalis de ar nada cordial, policial; as papalvas com capotes de velhas alvas; lobos, lobatos e lobinhos, nédios e anafadinhos, que o seu parente era vizo-rei. Lá estavam os teixugos, patudos, ganindo: mate-se! e as raposas, hipócritas, fingidas, a dizer com eles, de olhos no chão: senhores compadres, têm razão! Lá estavam doninhas e arganazes, roedores e répteis, e, pelas árvores, a águia, o abutre, o bufo, o nebri e mais povo dos céus e matas de Portugal. A desbanda, como quem ali não é chamado, via-se erguido sobre as patas, grandão paspalhão, o urso Mariana. 44 A mãe da Salta-Pocinhas, com receio de se comprometer ou para melhor servir a estouvada, foi-se dali; a raposeta deitou-se debaixo duma árvore e, papo para o ar, como um bom operário, como o justo S. Macário, sem se importar com os ralhos de mestre Vicente, amigo de infância, que, de poleiro num ramo, tremia pela sua sorte, se quedou muito tranquila, como consigo nada fosse. Ora um bicho de vista penetrante, ao qual saem das orelhas pincéis de barbear, subira acima dum penediuho. Era o lince, nomeado também lobocerval, animal que, de batido e perseguido, caçado e fuzilado, vai rareando nos bosques. O bicho desenrolara o papel e, pedindo silêncio, em voz, primeiro encatarroada, depois pautada e aflautada, leu: 45 "Nós, D. Brutamontes, lobo vizo-rei das selvas da Beira Alta, por mercê de D. Leão, imperador do Soldão e terras do Preste João, da Libéria e Nigéria, montes e desertos da Arábia, Pérsia, de aquém e de além-mar em África, julgamos e fazemos saber que a raposa Salta-Pocinhas se tornou ré de fraude e graves ofensas para com nossa augusta senhoria e de morte na pessoa do teixugo D. Salamurdo, nosso muito amado e digno conselheiro. E para que tão horrível crime tenha o mais pronto e severo castigo, determinamos que lhe seja movida guerra em todo o território do nosso mando, havendo nós por bem recompensar com um carneiro de arroba, dois chibatos, ou vitelo a desmamar, e ainda carta de moço-fidalgo, aquele ou aqueles dos nossos vassalos que nos apresentem morta ou viva a sobredita malvada. Paços do Vizo-rei, etc etc" O pregoeiro desceu do púlpito e logo rompeu a seus pés grande motim de vozes. Os lobinhos, exaltados, uivavam: - Morra! Os teixugos, assanhados, ganiam: 46 - Esfole-se! E as raposas, astutas, machuchas, um pé em terra, um pé no ar, prontas a saltar, repetiam: - Morra e esfole-se quem é a vergonha da nossa raça! O urso sábio, depois de os gatos bravos, fuinhas, ginetas, toirões, miarem, regougarem, desabafarem contra a Salta-Pocinhas, que cometera o feio insulto ao lobo, tão bom, tão sabedor, pai de todos, ergueu a voz: - Fazeis-me pena, ó bichos destas falperras! Fazeis-me pena e por isso quero falar-vos a verdade verdadeira. Se o lobo é lobo, eu sou urso e neste mundo apenas tenho medo do húngaro e de mais ninguém. A Salta-Pocinhas foi trapaceira? Foi, que enganou o lobo. A Salta-Pocinhas foi lambisqueira? Foi, que bifou a fressura ao lobo. A Salta-Pocinhas assassinou? Alto aí. Quem assassinou o teixugo foi o lobo, que tem mais de bruto que de astuto, e é por igual grotesco e barbaresco, pirata e patarata, caprichoso e maldoso. Arrancai a língua à raposa, o coração e os miolos ao lobo, frigi tudo e deitai-o aos cães se quereis viver em paz. 47 E, isto dito, o urso sábio, hécticu, patético, filosófico e pernóstico, girou à vidinha. Por algum tempo os bichos discutiram, mas, de pois das palavras de Mariana, as opiniões desencontravam-se, não havendo meio de chegar a acordo nas providências a tomar contra a Salta-Pocinhas. O lince, então, foi ladrar a outra porta e o arraial debandou. Descarada e sem temor se despediu a Salta-Pocinhas de mestre Vicente, e marchou direita à sua toca a acabar a sesta interrompida. O lobo, porém, que além de tirano era rancoroso, jurou vingar-se da raposeta. E, contando que atrás de tempos tempos vêm, pôs-se a esperar a sua hora. A Salta-Pocinhas, certa que não seriam as unhas dos outros bichos que se desembainhariam para a prender, começou, entretanto, a levar, sem cautela de maior, vida de caça e de roubalheira, umas vezes com o estômago a latir, outras, mais fartinha que o gorgulho na arca. Breve conheceu todas as aldeias das redondezas e, nas aldeias, teve o cuidado de estudar os caminhos que lá vão bater dos quatro pontos, depois, as ruas, 48 os quintais, as casas, com os seus poleiros, seus moradores, seus rebanhos, e, acima de tudo, com seus cães. A estes distinguia-lhes o ladrido e fora mesmo até averiguar de suas ligeirezas a correr. Sabia que o padre-prior tinha um cão, o velho e simpático Piloto, que passava a vida na casota, a perna cruzada à mariola, e que desse ginja e jarreta pouco havia que temer; que o Mondego do Joaquim da Bernarda lhe trazia puas na coleira para poder lutar com os lobos e era um guarda de respeito. Conheceu a Diana, a Farrusca, o Joli, e outros podengos de caçadores que só têm léria e mais nada. Por vezes aconteceu-lhe ser surpreendida por matilhas inteiras, detrás duma parede ou no meio duma brenha, a espiar a vida da aldeia. Largavam-lhe eles no encalço, caí-caí, béu-béu-béu... Divertia-se ela em lhes torcer as veredas, ora levando-os para muito longe, ora fazendo-os girar em redondo como num picadeiro. Além de outras habilidades de caçadora, como 49 pegar uma galinha perdida pelas eiras, tornou-se artista nas manhas de colher escaravelho no voo, pôr a pata sobre saltareco quando finca os jarretes para pular, iludir os gaios pairando. Não tardou que chegasse a mestra nas malas-artes de comer do sen e do alheio. Mas ódio velho não cansa e assim era o do lobo para com a raposeta E não cansando, tanto lhe deu na magreza que a todos os vassalos ao fim duma temporada, pareceu o vizo-rei esquelético e peripatético como o urso sábio dos pelotiqueiros. Ora aconteceu, naquele ano, vir grande estiagem a ponto de secarem os prados, os arbustos, e o próprio rio. E emigraram muitos animais e faleceram outros à sede. Naquela mata apenas uma fontinha continuava a correr, tão buliçosa e fresca que era o gozo de quem bebia. E por lá passavam os bichos sequiosos. E como lá passassem todos, um por um, o lobo postou-se 50 de sentinela. certa - malucava ele - que a raposa também há-de vir à fonte, que à sede ninguém resiste". De sol a sol uns, da noitinha à manhãzinha outros, os bichos acudiam ali da floresta num formigueiro sem fim. Lá vinha aquele, delgado e espevitado, cauda em leque, olhos grandes de moleque: - Dá licença, meu senhor? - você, pai fuinha? Beba e que lhe preste. Bebia o bicho, tornava D. Brutamontes: - Não viu a Salta-Pocinhas? - Não vi, meu senhor. - Ela virá. Despedia o grande rabaceiro de ovos para dar lugar a certo bicharoeo pesado, anafado, orelhas pretas, beta branca no focinho, tontinho com sede. - É você, seu toirão? Beba... E o vizo-rei nunca se esquecia de perguntar: "Não viu a raposa?... Ela virá". Desfilaram por ali a papalva que se esconde com a alva, a lontra que ninguém encontra, os musaranhos perfumados, os arganazes roazes, as ratazanas e os ratinhos malandrinhos, a gineta casquilha, de 51 cauda em cedilha, a doninha furadeira, o intratável javali, o bandido do gato bravo, em suma os bichos que precisam de água como de ar para viver. E a todos interrogava aquele despótico senhor. A raposinha foi informada do expediente que adoptara o lobo e, dias e dias, curtiu a sede que lhe devorava as entranhas. Mais de uma vez chegara a arriscar pé até cerca da fontainha... O machacaz lá continuava de plantão, alimentando-se do que os aduladores lhe levavam, para dali nem um instante se arredar. Bem mirava a raposinha as nuvens no céu, não escondessem por lá algum borrifador de água. Qual! as nuvens lá iam correndo, claras, leves e preguiçosas como velos de ovelha branca depois de carmear. Uma tarde o sol foi tão abrasador que a raposinha, cheia de aflição, deitou a correr a um colmeal a molhar a boca no mel. Tombou um cortiço, porém as abelhas deram sobre ela feras e encarniçadas. E o que lhe valeu foi atirar-se ao chão e rebolar-se, rebolar-se muitas vezes até esmagar umas, amachucar outras, cansá-las a todas. Voltou, depois, ao cortiço; saíram novas abelhas a acometê-la. E, segunda, terceira 52 vez, se rojou pelo solo. Ao cabo de alguns ataques e contra-ataques, pôde finalmente chupar os favos em paz, que o enxame perdera a ralé, destroçado. Lambendo o mel, que lhe soube como a melhor canja, notou quanto era grosso e pegajento; e, notando quanto era grosso e pegajento, a ideia do ardil providencial nasceu em sua alma sequiosa. Espremendo os favos bem espremidos, untou-se toda com mel, por baixo, por cima, no pescoço, na suã, nas orelhas. Dali, foi de rota-batida à eira, rolou-se muito rolada no palhiço que ficara das debulhas e, rolada como rabanada no ovo, tornou-se ainda a rolar. E praganas, espigas chochas, toda a palhinha miúda se colou a ela. E parecia outra, assim mascarada, a comadre raposa. Afoitou-se, então, a tomar lugar na fila dos bichos que iam à fonte beber. Decidida ia, mas de modo algum segura de que o lobo a não reconhecesse por debaixo da palheira. Quando lhe tocou a vez, murmurou para o vizo-rei em voz aflautada, cana rachada, de velhinho: - Posso beber, meu senhor? - Quem é você? Não o conheço.. 53 - Olhe, meu senhor, o nome que me deu minha mãe é bicho-palheiro. Lá os sábios, por causa deste sobretudo de argalhas e porque me julgam mais rico de banhas do que na verdade sou, chamam-me - veja Vossa Mercê os mágicos! - chamam-me Paquitélia vilosela. - "Pastel frio de vitela", ah! ah! ah! nunca tal ouvi! Um nome assim, ainda que a gente não queira, faz rir. Ah! ah! ah! Pois lá isso pode ser. Agora bicho-palheiro... com esse corpanzil? - Faço quinhentos anos para o S. Bento, meu senhor. Quando nasci, a dinastia reinante não era a que um seu augusto avô tão venturosamente iniciou, mas a dos ursos. Sou desse tempo... em que não havia armas de fogo, e os bichos dançavam a galharda, na clareira dos bosques, ao luar. - Ignorava que nesta província existisse bicho tão venerável. Pois beba à vontadinha e, depois de beber, leve para a ceia este lombinho de carneiro. .. O bicho-palheiro bebeu, encheu o fole, e, ante o presente com que o vizo-rei o convidava, disse: - Saiba Vossa Mercê que sou herbívoro; agora, 54 se sua Grandeza me consente, levo esta carne para um ermitão, coitadinho, que passa o tempo a rezar pelas venturas do nosso vizo-rei. - Pois leve e apareça lá pelo palácio, que eu gosto de conversar com gente que tem prática do mundo. Olhe, não viu a raposa Salta-Pocinhas? - Encontrei-a a enganar o vizo-rei. - Ah! de outro bosque? A mim não enganava ela... - Enganar Vossa Mercê?! Quando eu deixar de ser bicho-palheiro poderá a raposa entrar com o meu senhor. Folgou o lobo muito com a graça e, sempre que o bicho-palheiro ali vinha matar a sede - o que sucedia dia por dia - se entretinham ambos em amistoso convívio, trincando à mesa real, e contando-se histórias da carochinha. O estio, porém, foi passando, até que os primeiros borrifos tilintaram na terra seca, trazidos pelo Noroeste. Quando nesse dia o bicho-palheiro, depois de fazer as despedidas, chegou ao alto da vereda, despiu a palhoça com um alarde que pareceu mesmo diabrura. E, na sua verdadeira samarra arrogante 55 e farfante, a raposinha gritou para o lobo embasbacado: - Vossa Mercê é vizo-rei, três vezes vizo-rei: pela força, pela bruteza, pela estupidez! Mas vizo-rei dos asnos, ó sendeiríssimo senhor! O lobo deitou a correr atrás da Salta-Pocinhas mas ela acolheu-se ao castelo onde não entravam cabeçorras como a dele. E, depois daquele ultraje, a febre de vingança, mais ardente que todas as sedes, abrasou o peito do lobo Brutamontes, vizo-rei das selvas e penedais da Beira, por mercê de Leão, imperador do Soldão e terras do Preste João... IV Dois anos decorridos, nova e dura estiagem atormentou bosques e terrinhas de Portugal. Secaram os prados, pelaram os montes, emudeceram as fontes. No reino dos bichos só a veiazinha da água continuava fresca e límpida a cantar. O lobo, cada vez mais desatinado e desvairado no ódio que tinha à raposeta, segunda vez se postou, como cabo de ordens, de atalaia à nascente. Pudera a grande trapaceira, graças às pernas, que eram lestas, e ao olho e faro, que nunca a enganavam, zombar até então de suas emboscadas e batidas! Pudera, de dentro do covil, em cuja porta não assomava, sequer, a sua majestosa cabeça de doutor de leis, fazer pouco de ordens e ameaças! Pudera ainda, com domino 57 de carnaval, abusar da sua boa fé e beber à tripa forra auguinha da fresca! Mas deixa, a raposeta havia de voltar, oh! se havia! E que trajasse então fato-macaco ou casaco, capa à espanhola ou camisola, se é certo que o mel se dissolve na água, em menos de nada estaria em pêlo como a mãe a deitou ao mundo. Era questão de obrigar os vassalos a tomar um banho, o que, além de saudável, era agradável com a soalheira que caía. Havendo assim meditado, quando os bichos chegavam à fonte, língua ardente, pendente, a cada um deles dizia: - Mergulhe primeiro, depois beba! E todos afocinhavam, mergulhavam, nadavam, a fim de ele, vizo-rei, se convencer que em samarra alugada, com mel grudada, se não escondia a descarada. Comadre raposa teve notícia daquele ardil e, como andasse morta de sede, deu ao Diabo a má cabeça que a levara a escarnecer do lobo com a bravata escusada de lhe jogar às barbas a fatiota de bicho-palheiro. E, por mais que procurasse uma contramanha, não achava nada jeitoso. 58 Enovelada na toca, a raposeta recordava, cheia de saudade, os bons tempos. Ah, cães de Nisa, como depois duma noite de rapina lhe era doce o repouso das manhãs, com os povos, lá ao largo, quais colmeias a zumbir, os carros de bois a chiar e o canto dos galos saudando o Sol nas alturas! Não raro, acordava da sesta a um coquericó mais alto. E em sua alma maliciosa sorria: - Canta, que talvez dances! Embora a paixão da caça fosse nela dominante, apreciava o solfejo alegre que a punha em relação com os mais seres, bicharada de capoeira, de bosques, de casa telhada de portas e trincos, louca, temível, na roda-viva de nascer e morrer. É certo, lá de ave gostava ainda mais da carne que da música. Mas como era de boa boca, tanto um belo dia se banqueteava de peru, como outro não passava de besouros e sardaniscas. Mais esperta que um pele-vermelha, ia-se também até a ribeira pescar a sua truta, roçando ao de leve a cauda pela corrente a fazer de pluma. E com grande prazer mascava esses peixinhos delicados e sarapintados, com farda mais imponente que a dum tenente. 59 Mas agora, sob as torturas da sede, até as próprias recordações lhe pesavam. E com a febre e a lazeira andava, tal o urso sábio fugido ao bailado e o lobo Brutamontes comido de raiva, héclética e peripatética. Ora, em seu muito vadiar e reloucar, sucedeu-lhe um dia passar por certo pinhal e ver a resina que sangrava dos pinheiros para as tigelinhas de barro. Observar aquele preparo e conceber um plano engenhoso foi obra de instante. Foi-se às tigelas e besuntar-se bem besuntada não lhe levou, também, mais tempo do que sorver um ovo de codorniz. Depois, correu a uma horta - para manter a qual, tenra e viçosa, um burro de olhos tapados puxava à nora de manhã a sol-pôr - apanhou as folhas largas da couve troncha e cobriu-se com elas. Assim vestida de manto verde, colado à pele pela resina, formou na procissão interminável dos bichos que iam à fonte matar a sede. Quando chegou à sua altura, olhou para ela o lobo, desconfiado e assarapantado: 60 - Ena, que bicho tão averdengado!? - Sou a lagarta das couves, meu senhor. - Assim medrada...? - Ando hidrópica... comi, também, um repolho e trago-o trancado no estômago. - Pois mate a sede, mas primeiro mergulhe. A lagarta das couves afocinhou, nadou, mergulhou e, como a gema se não dissolve na água, saiu do banho com o manto ainda mais verde e aperaltado... Depois de se fartar e dar as boas-tardes, havendo ganho a confiança de Brutamontes, rodou. E, como não faltassem púcaros de resina no pinhal, nem hortaliça na regada, a lagarta hidrópica era ali infalível todos os dias. Debalde o lobo esperou e tornou a esperar que a raposeta matreira, faceira e lambisqueira, ali viesse a beber. Já o cavalinho do inverno se ouvia por detrás das montanhas a relinchar, dizia ele para os vassalos - A Salta-Pocinhas estoirou; ela que não aparece, estoirou. Quem lhe achar a carcaça, dê-a à terra, que semeia a peste. 61 Igual recomendação fez à lagarta das couves, que, pela derradeira vez, ali veio molhar a goela. - Fique sabendo, sua lagarta: a raposa morreu. É preciso sepultá-la, que envenena meio mundo ao que cheira de mal e antes que se lhe desate o saco da velhacaria. - Às suas ordens, meu senhor. Abalou a lagarta das couves dali, e uma vez no alto, despindo o manto catita, bradou para o lobo boquiaberto: - A raposa cheira mal?! Mais mal cheiras tu, teu pai, tua mãe e a imbecilidade que bebeste no leite, de geração em geração! Adeusinho guarda bem a fonte, e até o ano! Quedou o lobo desesperado e inconsolável com mais aquele enxovalho às suas barbas reais. Um furor cego, furor doido se lhe acendeu na negra alma. Cometeu barbaridades sem conto, entregou-se aos piores caprichos e às mais feias aventuras. O seu rato doméstico - correio de notícias - tinha medo dele que se pelava. Os bichos murmuravam: - O nosso vizo-rei endoideceu! Certa madrugada - estava ainda o sol em casa 62 de Pilatos - propagou-se pela floresta uma nova de estrondo: falecera Brutamontes! Correram os cortesãos e foram dar com ele estendido à entrada do palácio, grande, magro e funéreo. Do fundo das brenhas acudiu a população e, como o lobo fora governador despótico e sanguinário, os bichos todos entoaram um coro de alegria. Depois achincalharam o cadáver. A fuinha bateu sobre ele o fandango e dois passos de tango; o toirão deu-lhe beliscão de criar lesão; o gato bravo espetou-lhe um cravo. E, ao tempo que iam praticando no morto toda a casta de desacatos, protestavam dali em diante viver na descuidosa paz das repúblicas. A gineta, que, além de casquilha, cauda em cedilha, é andarilha, correu a levar a notícia à raposinha: - Alvíssaras, senhora comadre, morreu o tirano! - O lobo? Enterrem-no a duas varas de fundo e, por cima, rolem um penedo. Não será fanico? 63 - Esticou o pernil bem esticado, venha ver... A raposa pôs-se a caminho e, leva que leva, breve se viu em presença do morto, mas não tão cerca que não mediassem até ele dois a três pulos respeitáveis. Não havia dúvidas: o corpanzil do lobo jazia por terra branco, mortuário, funerário, e, sobre ele, os bichos sapateavam. - Comadrinha - dizia uma voz - vem-lhe dar um piparote... - Prima - tornava outra - olha que boa pança para embainhar o chifarote! - Era um malvado! - Um degenerado! - Um comilão! - Um cobardão! - Um paspalhão! - Um ventas de cão! - Todos os nomes feios em ão! ão! ão! - Olhai lá, ó amigos - proferiu a Salta-Pocinhas 64 - o nosso vizo-rei estará bem morto... ou des- maiado? - Quê! está bem morto. - Olhai lá: o meu avô, quando faleceu, esbombardeou três vezes. Vós já o ouvistes esbombardear? Se sim... calo-me... Os bichos olharam uns para os outros sem saber o que pensar. E, no silêncio que pairou, ouviu-se o lobo soltar três ribombos sucessivos como nas salvas da artilharia. - Desmascaraste-te a tempo! - exclamou a raposinha dando às trancas, após breve e trocista negaça. O lobo ergueu-se medonho, rangendo os dentes, e cada bicho se esgueirou para sua banda. E, vizo-rei zombado, humilhado, desclassificado, do alto do terraço clamou para a raposa que corria, a cauda basta erguida em aspa: - Maldita sejas, ó embusteira! Maldita sejas, rainha das farsantas, a maior velhaca que a rosa do sol cobre!! 65 66 V Sentada por detrás das urzes, num oiteirinho, comadre raposa namorava os figos lampos que, de pança manteiguda e reboluda, pendiam duma figueira. Mas não longe andavam ceifeiros e receava que a vissem. Estava deitando cada olho aos figos, maior que os próprios figos, quando aconteceu passar por ali um potro baio, todo desenganado e farsola com ar de quem fugiu à argola. - Para onde vais, cavalinho? - perguntou ela na voz mais doce e fagueira. - Para onde vou? Vou por esses mundos além. 67 Ouvi dizer que amanhã me iam deitar a sela, fugi... - É muito feio ser desobediente, cavalinho, muito feio. Mas já que o mal está feito, o anjo da guarda te acompanhe. Para que banda tomas, amigo? - Para onde haja ervas que pastar. - Conheço os prados como as minhas mãos: vem daí, que eu te ensino. Comeste tu hoje? - Duas reles fêveras das ribanceiras. A caminho da almargem deixei-me ficar atrás até que pastor e manada me perderam de vista. Depois, trotei, trotei toda a santa manhã. - Pois vem comigo, vou levar-te a um campo de relva onde poderás encher a pança. - Abençoada sejas! - O campo é além! Vês? Ao pé da figueira...? Mas como lá adiante andam os ceifeiros, que o Diabo leve, e podem desconfiar, é preciso que entres afoito, senhor de ti, como se fosse o amo que para lá te guiasse... - Está dito, anda lá adiante. - Não, tenho de marchar à tua ilharga por via de o sol não me bater nos olhos, que tenho catarata. 68 Assim fizeram. Abrigando-se com o vulto do cavalinho, não por mor dos olhos, que de finos faiscavam, mas para não ser lobrigada pelos ceifeiros, a raposa chegou aos figos lampos, a meio do rei vedo. E, a agatanhar para a figueira, disse ao poldro: - Eu vou de mirante, cá para cima, não venham por lá aqueles homens ou teu amo. Pasta à vontadinha que, se houver perigo, eu boto alarme! Embrenhou-se a zorra pela figueira e por lá andou tanto tempo que, à força de manducar, havendo subido lesta como um gato, desceu mais pesada que um pato. - Vamos embora? - disse para o garraninho, que também já enchera o fole. - Pois vamos na graça e boa paz. Tocaram a andar e, andando, devido à confiança que o cavalo inspirava pelos caminhos de Cristo, a raposa pôde filar uma cotovia, que do céu descia, e uma perdiz cantatriz. Mas lá porque estivesse farta, de braços cruzados, palonça, deixou partir um musaranho que se lhe viera meter nas pernas, responsando o imprudente: - Vai, vai, desta estás perdoado! 69 Muito se maravilhava o cavalito com tais artes, mas não tinha de quê, pois era aquela a Salta-Pocinhas, raposa matreira, faceira e lambisqueira sem rival. Leva que leva, foram dar a uma mata de velhas e grossas árvores com troncos carrancudos, barbaçudos. Descera a noite e tinham-se acendido as estrelas, tantas e tão vivas que parecia o céu um arraial de balõezinhos. De asas trementes, batentes, dançavam os morcegos no ar. Ouvia-se perto um pio choroso, prolongado: viram bois! - Jesus, aquilo que é? - perguntou o garraninho, cheio de medo. - Aquilo é o bufo. Pudesse eu passar-lhe os cinco mandamentos, que a lamúria cessava. O ladrão, quando não anda na roubalheira, está sempre assim: viram pois! viram bois! Ao que me consta, ainda papa mais coelhos do que eu. No meio de tantos medos, aqueles gritos, aqueles troncos esgalhados, que pareciam fantasmas embasbacados, 70 o ruge-ruge das folhas ao vento, começou o cavalinho a arrepender-se da aventura. Mas era tarde e seguiu a raposa, que o levou primeiro a um corgo, onde matou a sede, em seguida para debaixo duma carvalha, a fim de passar a noite. Altas horas, estava ele a malucar sobre o grande pecado de ter fugido, e a raposa, encarrapitada num galho, de alerta, na esperança de deitar a unha esgadunha a ave ou pequeno ruminante com que escovar os dentes, sentiram ranger o mato. Arrebitaram a orelha e, a par com o rumor que foi crescendo, ouviram uma voz pastosa, fanhosa, de papão, rabecão em fabordão: - Foi uma vergonha, torno a repetir - dizia a voz. - A afilhadinha à espera que a fosses convidar para o fox-trot e tu a contas com a perna de carneiro. Arre que é ser comilão! - Ó minha santa, como havia de eu ir dançar o fox-trot, se não sei? Nem a chula, quanto mais a endiabrada duma dança que se inspirou nos jeitos e nas piruetas duma deslavadíssima e grandessíssima tunanta, que ia dando comigo doido! Não é isso, do ingliche: fox - raposa, e trot - trote?... Trote 71 da raposa, se me não falha a língua. Sei pegar uma rês no meio do rebanho mais guardado, como nunca o lince nem a gineta serão capazes de fazer; agora lá dança, foi arte que minha mãe se esqueceu de me ensinar. - Pois andou mal. Era ver esta noite o gineto como se mexia! A sacudir o fraque, a rebolar a anca, ponha aqui o seu pezinho, ponha ali o seu pèzão, foi o brinquinho do baile. E tu, ao canto, rilha que rilha, como se andasses doente de fome canina! Lambão! - Mas que seca! Não bailei, nem tenho pena, que não há nada mais ridículo que todo esse jogo de mesuras e salamaleques. Que tem lá que não bailasse? - Tem muito! A vergonha não a passas tu...! A ti não te dizem nada!.. Mas de mim, que soa frágil, que pertenço ao belo sexo, não se escondiam para falar. Diziam-nas bonitas: "Olha que par de labregos! Como diacho convidou o lince tais brutalhões?" - Deixa... Uma sapatada, e faço em cisco os maldizentes. 72 - Não te bastou a guerra que tiveste com a raposa? Ainda queres mais? Olha, eá por mim, disse, disse: vou-me ter com o mestre de dança que me ensine a bailar. - Pois vai, e tantos saltos dês tu na valsa que caias na boca dum fojo! A loba - que dela era a voz de rabecão em fabordão - afastou-se ralhando. Brutamontes - que outro não era o inimigo dos dançarinos - quedou ali, a resmungar, a praguejar, tanto e tanto, que lhe vinha às fauces, em espuma, o fel da raiva. Depois, ou que se fosse aplacando a cólera, ou o cérebro se libertasse da difícil digestão, bebeu ventos de caça. E rabo alçado, focinho em terra, a fairar e a correr, ora a direito, ora em redor, foi ter à árvore em que se acoitavam o desobediente cavalinho e a raposa matreira. E ia já para saltar ao pescoço do garrano, quando uma voz melada, ainda que esganiçada, lhe disse do alto: - Viva, compadre, viva! Dê os bons-dias e guarde a bolsa... - Você aqui!?... Com esta companhia, é novidade! - regougou o lobo, que fizera as pazes com 73 a Salta-Poeinhas, depois que os bichos decidiram proclamar a república. - Novidade pequena - tornou ela. - Ando a aprender a dançar... Esse senhor que aí vê é o meu mestre de dança. - Ah! ah! então a comadre também não sabe dançar? Diziam-me que já o seu passo era de dança... - Olhe, compadre, sei dançar e não sei dançar. Nessas danças novas, da última, última moda que o demo inventou, sou uma asena Agora lá para as danças velhas desta velha terra, chulas, fandango, o vira, o estaladinho, concordo que não haja perna mais alceira que a minha. Mas, que quer, é preciso saber de tudo... exige-o a boa educação... O meu mestre, que tenho a honra de lhe apresentar, é professor bailarino pelas Academias. - Muita honra em conhecer - pronunciou o lobo, 74 admirando-lhe a garupa nédia e luzidia, boa para cortar em bifes, e as pernas finas e nervosas, talhadas tanto para o passo mesurado do tango como para o galope largo das quadrilhas. - O compadre não sabe dançar? - tornou a voz adocicada. - Não, comadre. Nesta vida de batedor de montes não aprendi prendas de sala. - Pois não é bonito, não é bonito para o principal destas selvas. Deixe romper a manhã que o meu professor dá-lhe uma lição. - Sinto muito, mas prefiro que me dê o almoço. - Tão simpático este senhor D. Brutamontes, mas não há modo de o siso lhe entrar na mioleira! Porque é que lhe não há-de dar a lição? Dá-lhe a lição e dá-lhe o almoço. Primeiro a lição, em seguida o almoço. Percebeu? Veja lá: se não percebeu, eu explico. - Percebi - regougou o lobo, num riso que queria ser ladino, com medo de fazer má figura ante a trocista da raposa. - Estará ele pelos ajustes? - Se está... É meu mestre contratado. - Então à obra. 75 - Temos que escolher um lugar apropriado. Como queria ensaiar aqui pé de dança com raízes, árvores, o chão todo aos barrancos? - Vamos para uma clareira... - O melhor é irmos para fora da mata. Mas não tenha pressa... não tenha pressa, compadre. Os galos já salvaram à madrugada, não tarda que levante o solzinho de Nosso Senhor. A aurora ainda vinha longe, lá para casa de Deus verdadeiro. Luziam como candeias que têm muito azeite a consumir as estrelas do céu. Os sapos haviam, no entanto, calado o seu oboé e já as rãs para os pauis davam sinal de cansaço. E, a meio de ambos, engenhosa, vagarosa, a contar o conto que tem sempre mais um ponto, a raposa foi andando, andando... VI Estava a romper o dia. A névoa que pousava sobre a ribeira esfarrapava-se, e pela planície iam flutuando fiapos, brancos e mansos como gansos a voejar à flor dum lago. Já se ouvia o canto madrugador da cotovia, mas no céu, para bandas do Norte, faiscava ainda a estrela da manhã, como dália de oiro num açafate de prata. Raposa, cavalo e lobo tinham chegado à orla da floresta e buscavam o sítio mais próprio para a lição de dança. - Aqui é bom! - dizia o lobo. - Há melhor! Há melhor! - respondia a raposa, sempre insatisfeita na escolha do salão onde bailar. O cavalito, cobarde e atarantado, não abria boca. 77 Sentindo-se nas garras do lobo, estava na esperança de que a raposeta, pintalegreta, senhora de muita treta, fosse uma vez na vida generosa e o livrasse daquele mau passo. Vinham-lhe ganas de deitar a fugir, mas temia-se das pernas do lobo, rijas e bem lançadas, que nunca experimentara na carreira. - Há melhor! - continuava dizendo a raposa, sirigaitando pela campina. - Esta comadre nunca tem pressas! - resmungou o lobo. - E este compadre nunca tem paciência - retorquiu ela. - Olhe que sem paciência ninguém se salva dum tiro! - Pois sim, mas daqui não arredo mais - tornou Brutamontes, de má catadura. - Seja; o lugar já não é mau de todo. Cheguem-se ambos para aqui... Cavalo e lobo aproximaram-se. - Mais perto! - Pronto! - proferiu o lobo, pulando à frente. A terra espraiava-se até bem longe num desdobre mansíssimo de pequenos vales e colinas. Para lados de Nascente, o céu era encarnadinho, encarnadinho, 78 como se por lá se houvessem entornado muitos potes de vermelhão. - Amigos, tudo requer o seu jeito! - dizia a raposa. - Vá, avance você, compadre... avance! Recua tu, meu mestre! Recua, que ninguém te faz mal... A garupa mais para a direita... assim! Parados lá! Encolha-se um nadinha, compadre... Estenda agora mais o pescoço... mais... mais ainda! Quando eu der o sinal, rompem. Vá, a postos... A raposa, em menos de sopro, fez um laço no rabo do professor de dança e passou-o à pescoceira de Brutamontes. E, depois de esticar e dar nó cego, gritou para o cavalinho: - Tens amor à vida? Prega-lhe uma boa parelha de coices e a galope! O poldro compreendeu. Mestre no atirar, escaqueirou as queixadas ao lobo; depois, de ímpeto, levou-o de rastos pela terra fora, por cima de sebes, rochas e matagal. À banda, corria a Salta-Pocinhas e, correndo, soltava as mais desaforadíssimas gargalhadas. Mas tanto puxou o cavalo, tantos tropeções deu o lobo, que os cabelos da cauda acabaram por estoirar. 79 Quando se viu solto, embora muito amachucado, Brutamontes subiu a um cabeço a chamar os companheiros daquele bosque. Uivou, uivou, e o cavalinho, que tal ouviu, como houvesse gasto muito alento a rebocar a fera que pesava mais que uma saca de batatas e se apercebesse do perigo, relinchou também. Relinchou a chamar a mãe, os irmãos, os pastores, os cães fiéis. E, galopando sempre, não tardou que ouvisse crescente sussurro atrás de si e compreendesse que eram as alcateias daquela floresta, açuladas para o comer. Mas não perdeu ânimo e redobrou de velocidade. E, mais as feras uivavam e lhe cresciam no rasto, mais ele corria. Começava já a descrer da salvação quando sentiu pela frente grande tropel. Que era, que não era, numa volta do caminho breve descortinou, ao seu encontro, pós-catrapós, numerosa e briosa cavalaria. Lá vinha sua mãe pigarça, colo de garça; seu pai morzelo, altura de castelo; lá vinham os companheiros, baios, brancos, fouveiros, e grande parte da manada disparada em socorro, ao ouvir-lhe a voz. Pô-los o cavalinho ao facto do que sucedia; e logo o cavalo morzelo aspirou o ar, escarvou e num relincho 80 (Página de extratexto entre a 80 e a 81) Quando os cavalos são atacados pelos lobos, defendem-se a coice, voltando-lhes a garupa. Se os atacados são bois, dcfendem-se à cornada, oferecendo-lhes a fronte. Como a vitória aqui é dos cavalos, já estes não guardam a devida forma de batalha. Coices assim nem tiros de morteiro! (Fim do extratexto) deu sinal de meia volta. Abalaram e, vale fora, a valente galopada rolava como o trovão. Lá iam sempre em frente. Mas eis que, ao desembocar no caminho velho, uma alcateia, que metera a direito pela serra, tomava-lhes o passo. Caramba, eram cinco lobos de respeito, de temer, por conseguinte, que na arremetida algum dos cavalos 1 7 fosse salteado e filado. Em vista disso todos à uma, como se obedecessem a comando, formaram em círculo, cabeça para dentro, garupa para fora. E desta maneira puderam expor ao inimigo uma defesa que não era fácil render, disparando certo e a tempo. Os lobos, por seu lado, alinharam em redor; apareceram outros; chegou o lobo mofino, com ambições de bailarino; acudiam mais de longe. Travou-se o combate. Um dos lobos mais corpulentos formou pulo; mas um coice, que lhe assentou na arca do peito, mandado pelo cavalo morzelo, estatelou-o, metros dali, 81 a gorgolejar sangue pela boca. Outro esticava os jarretes para saltar, quando, mais veloz que raio, o colheu em cheio uma ferradura com os cravos todos. E o bicho retirou com a dentuça partida, dando uivos. Um terceiro, ainda bisonho, deixara-se enredar nas pernas dos cavalos; e, debaixo das patas, ora duns, ora doutros, foi pisado, mais pisado que as uvas no lagar. Em torno dos cavalos, que nitriam e escarvavam o chão, as alcateias reprimiram o ímpeto, amedrontadas. O sol nasceu, derramou sobre os montes a sua chama, mais branda e doirada que azeite fino. Foi então que, entre dois penedinhos, os lobos descobriram a raposa, imóvel, com ar de quem está observando e alguma tramando. Gritou-lhe um deles que descesse para baixo e lhes ensinasse qualquer boa manha com que ganhar a batalha. Ela, então, soltou uma risadinha escarninha, e, tep, tep, partiu em direcção das arribanas. Homens e cães dormiam ou estavam ainda recolhidos, e ela regougou. Regougou uma, duas, três vezes, até que ouviu murmurar ao maioral: - É o diabo da raposa! 82 Uivou novamente a comadrinha: - Maioral, maioral que tanto dormes, levanta-t- Que é lá? - bradou ele. - Escuta: sou uma pobre caluniada que nunca te roubou rês. Não roubei, nem roubo. Agora só como ervas. Pôs-me o médico de dieta... - Bem te conheço, pau de laranjeira! - Escuta: se te prestar um bom serviço, que paga me dás? - Dou-te um tiro na primeira ocasião que te encontre. - Bem sei, mas eu cá espero morrer de velha, que nos currais não me apanhas tu. Dize-me agora, ó ingrato, já contaste a manada? Não falta nenhuma cabeça? Pois eu venho-te avisar que faltam muitos cavalos e, olha, estão a batalhar com os lobos. O maioral correu ao pasto e, num relance, vivi o rebanho reduzido dum terço. - Raposinha! Raposinha! - chamou com grande ânsia. - Ensina-me onde é! - Vai na direcção da mata, não tem que errar. O maioral chamou os cães e os pastores todos; 3 pegaram em mocas e espingardas, e, a cavalo nas éguas criadeiras, abalaram à rédea solta. Quando o rumor da tropeada se esvaiu ao longe, a raposa desceu do cabecinho; e, sorrateira, arteira, lambisqueira, meteu às abegoarias e deitou a unha ao pato mais gordo e palordo que refocilava na charco. 83 84 SEGUNDA PARTE A COMADRE! 85 86 I Comadre Salta-Pocinhas era mãe de três filhos e acabava de enviuvar. Da casa do teixugo mudara para outra, mais ampla e arejada, com despensa, alcovas e uma espécie de cubículo de porteiro, donde, sempre prudente e desconfiada, espiava e policiava, farejava e palpitava, antes de sair ao largo. Portas falsas tinha tantas como um castelo afonsino, todas necessárias que eram muitos os inimigos e todos diferentes a atacar. Bom era o covil, mas não foi ela que o fez. Quem executou as primeiras obras foram os coelhos, que são grandes mestres mineiros, depois veio ela com o marido, paparam os senhorios e, cavando e desaterrando, 87 tornaram a toca mais cómoda e confortável. Ali nasceram e se criaram os três cachorrinhos, que já deitavam até o terraço na brincadeira, e vestiam farpela amarela, a puxar para canela. E estavam muito nédios e gordalhudos, que os pais, sabendo o caminho das aldeias, uns dias por outros punham um poleiro a saque. Mas não há bem que sempre dure e tristemente acabou aquela fartura de sangue morno e carne fresca a palpitar. Tanto andaram, tanto roubaram, tantas galinhas meteram no papo e outras no alforge, que foram bater nas ratoeiras. Lá ficou o pai raposo, preso pela jarrete, a uivar aos céus, enquanto os animais domésticos - o gato maltês, negro como pez, o peru, pernas de bambu e barbicacho de borracho, as pintadas deslavadas, as galinhas parvinhas, o coelho usem barrete vermelho", o cão Minhoto, raboto - se apertavam à volta em grande algazarra e basbaqueira. Acenderam-se os mastins, valendo-lhe a ela fugir às sete partidas, quando não, ficavam os filhinhos sem pai e mãe. O desastre não era da véspera e, todavia, a raposa, triste e receosa, ainda não arriscara pé fora 88 de casa. E já o jejum lhe pesava, mais aos cachorros, que lhe puxavam as tetas escorridas, desatinados e a grunhir: - Temos fome! Rolada em bola, ela virava-se para a outra banda, vagamente a cismar, vagamente a lembrar o pobre esposo, filado pelo engenho infernal. Os raposinhos, porém, choravam, regougavam, berravam por todos os foles, e ela ergueu-se do ninho a espreitar o céu. Alongou a focinheira para a clarabóia, fairou, e volveu à cama transida e confrangida, arrepiada e desconsolada: - Ui, está a molinhar! Os filhos, porém, caíram sobre ela à trombada e à dentada, ganindo e refilando. E para os sossegar, segunda vez foi à janela ver o tempo. Viu um grande arco-íris, lançado como ponte de monte para monte, e nuvens brancas, preguiçosas, muito belas, passando por debaixo como caravelas. Mas não tardou a recolher-se, dizendo: - Ui, está a relampejar! Os raposinhos, rabiosos, romperam então em tal motim que podengo ou caçador daria conta, se por 89 ali lhes acontecesse passar. Porque era um perigo, a mãe voltou à janelinha a mirar, mas, gemente, rabo pendente, novamente se desculpou: - Ui, está a ventejar! Que molinhasse, que relampejasse, que ventejasse, que caíssem chuviscos ou coriscos, os raposetes tinham fome, e diante do seu apetite não havia lei. E, depois de muito protestar, ladrar, barafustar, os mais tunantes largaram pela galeria fora decididos ao que desse e viesse. A mãe, dum salto filou-os pelo cachaço, deu-lhes duas estaladas deixando-os a chorar, foi-se até à boca do covil em exploração. As suas orelhas altas e finas, de forma a colher os ruídos mais leves e distantes, por farto tempo se conservaram arrebitadas e quietinhas. E como mais não percebesse que os rumores próprios dos bosques - o ramalhar das folhas, dois ramos secos, tac-tac um no outro, uma 90 pinha, pumba! em terra - voltou ao quarto a dizer aos filhos que estivessem muito caladinhos, quando não vinha o papão - papão era o homem ou o rafeiro - e comia os meninos. E, depois de lhes prometer um bonito - ratinho, rã ou coelho - para brincar, se tivessem juízo, despediu como uma seta e pôs-se ao largo. Chegada a um altinho, donde se abarcava vasto horizonte, passeou a vista em redondo. Era no mês de Maio, um mês de Maio atrasado, que ainda não tivera tempo de vestir à serra o seu manto de várias cores. Lá estava o arco-da-velha, de monte para monte, e o sol, da outra banda, a vir e a fugir, como se tivesse medo de atravessar a ponte. Um ventinho rinchador punha a dançar a grimpa dos pinheiros e arrepiava a erva dura que medra para coelhos e animais bravos nas corcovas dos morros. Não se descobria vivalma. A Salta-Pocinhas jogou uma pata, ergueu a outra e, como andasse morta de fome, pôs-se a caçar com toda a gana. Passo a passo foi espiando urzes e tojinhos, deitando o rabo do olho às gretas dos penedos, com fito em perdiz no choco ou láparo a dormir o 91 sono dos justos. Andando, andando em tal empenho, ouviu cantar um grilo. - Olá! - disse consigo. - Cedo madrugou o freguês. É o primeiro que ouço cantar... E guiada pelo som da cantiguinha, cri-cri-cri, cri-cri-cri, foi-se aproximando. Veio uma onda de sombra, e ele calou-se. Voltou uma onda de sol, tornou o cantarino a entoar: cri-cri-cri, cri-cri-cri. Pé ante pé, santo Deus, onde estarás tu? breve lobrigou o músico a bater as asas, numa touceira de ervas, à porta do buraquinho. E saltar sobre ele e engoli-lo, feito em pílula, foi obra de um segundo. Ainda a reles iguaria lhe não tinha chegado ao fundo do estômago, desatou a arrepelar-se: - Ai que miserável eu sou! Tenho os filhos tolos com fome e papei o rico grilinho! Oh! não haver uma chumbada que me vire! Raciocinando, no entanto, que fraco manjar era aquele insecto para três marmanjões como os seus filhos, abrandaram-lhe os escrúpulos e continuou a caçar. Por ali fora, busca aqui, 92 busca acolá, descobriu um láparo agachado entre penedos. Arrelampou o olho, estudou a talisga bem duma banda, bem doutra, mas como era muito estreita, não havia forma de catrafilar o dorminhoco. E pôs-se a meditar na estúpida sorte: - Se meto a unha por um lado, o ladrãozinho safa-se pelo outro. Abafá-lo com um salto, impossível. Vamos pelas boas. Recuando uns tantos passos, desatou a raposa a cantarolar, para depois vir por ali abaixo com solfejos doces, pianinhos, como S. Francisco aos passarinhos: Eu vos juro, Pai dos Bichos, Não fazer mal a ninguém; Laparoto desgarrado Levo-o pra casa da mãe! À boca mesmo da talada, retrauteou o hino: Laparoto desgarrado Levo-o pra casa da mãe! E, suspendendo-se de bocarra aberta, como quem acaba de avistar grande amigo, avançou para o coelho, que esbugalhava muito os olhos na cama: 93 - O menino por aqui...! Viva, viva lá um senhor de tanta bizarria! Abençoados olhos que o vêem. Então estava a dormir a sua soneca? O caçapo nem pestanejou, nem disse bus. E logo a comadre, mestra em tretas e mãe das petas, tornou: - E, olha, é mudinho! Ora o pobrezinho que é mudinho! Mal empregado! Eu sei duma erva que cura a mudez... É só esfregar a língua com ela. - Não sou mudo, não senhora - respondeu o laparoto, todo lépido. - Minha mãe é que me mandou estar calado, senão, que vinham lá as feras e comiam-me. Sabe vossemecê!? - Fico sabendo, meu pequenino. E folgo, folgo muito. Era uma pena que com tanta formosura fosses mudinho. Muito lindo tu és! Então a saltaricar, deves ser uma perfeição. Anda cá para fora, que te quero ver bem... - Ná, que minha mãe disse que me acautelasse da senhora raposa... - Ora, ora, ora! Que mal faço eu! Tua mãe é muito desconfiada. Apostou um dia comigo que as galinhas fugiam de mim. Apostou e perdeu. Fomos à eira onde as galinhas andavam a rapar... Falei 94 com a pedrês, ri-me com a barbuda, dei um abraço ao galo, de quem sou amiga do colégio, e não houve uma só asa que batesse para largar. Desde esse dia, tomou-me tal embirração que não me pode ver. Que te acautelasses de mim...! Ora, ora, ora! - Disse-me que vossemecê era muito má, que comia os coelhinhos e as lebres... - Que calúnia, santo Deus, que calúnia! Comer eu os animais meus primos!? Abrenúncio! Não, menino, eu já nem grilo posso provar; pôs-me o médico de dieta... O que como é erva, a ervazinha das fontes... lá isso como, e nunca me farto. - Também eu. - É de muito sustento e dá formosura. Olha, agora ia eu para o prado, aqui perto, onde o trevo e a serradela são tão mimosos, que só por especial graça de Deus. Se queres, ensino-te... - Ná, ná, que vossemecê faz-me alguma das suas... - Ó filho, varre-me tão negras ideias do entendimento. Não faço mal a uma mosca. Tomara eu que me deixassem! - Jure lá! 95 - Juro: pelo Criador dos melros! O coelhinho pulou ágil fora da toca e logo as palmas aveludadas da raposa lhe saltaram em cima e o amarfanharam E, em menos de uma ave-maria, passou-o ao bucho. Ia a lamber a beiça e a suspirar por mais, quando lhe vieram remorsos de não ter levado o pobre pateta aos raposinhos, que estavam negros de fome. E castigou-se segunda vez com mil pragas e maldições: - Desnaturada, desnaturada, três vezes desnaturada que eu sou! Encho o paiol e deixo morrer os miúdos à míngua. Anda, raposa lambisqueira, anda, valha-te um burro aos coices! Levada naquela aldravice, voltou a bater monte. Correu, vagueou, sondou matagais e penhascais, mas lá de topar o tanso de outro coelho ou grilinho musiquinho, não houve modo. Sobre a tarde ouviu os chocalhos dum rebanho e, à socapa, foi-se abeirando. Apascentava-o certo pastor de surrão a tiracolo, grossa cacheira de nós, e um sabujo em que, pelo porte desempenado e a coleira de pregos ao pescoço, reconheceu o temível Mondego do Joaquim da Bernarda. Por detrás dum penedinho, a raposa seguiu 96 (Página com extratexto entre a 96 e a 97.) Rica era a capoeira, mas o dono esperto e desconfiado. Atrevidamente a assaltou a Salta-Pocinhas com o marido na ânsia de dar de comer aos filhos. Mas o raposão teve a pouca sorte de ficar em ferros. - Cantas? - dizem em ar de troça os bichos domésticos para o desgraçado a uivar. - Breve danças! (Fim do extratexto) os passos do rebanho, olhos arregalados para o lombo dos cordeiros, que, cabriolando e roendo os rebentos dos sargaços, iam balindo o inocente mé! mê! O cão, porém, tirava-lhe a esperança de poder saltar ao cachaço dum deles e filá-lo, mas continuou, por vício e também por escrúpulo de zelo. E neste manejo, que ora a acercava ora a distanciava do rebanho, aconteceu-lhe ser vista por uma ovelha que se pôs a berrar e a fazer-lhe figas, o que levou o Mondego a ter cheiro da sua presença. De facto o canzarrão rompeu a correr, ora em redondo, ora em linha recta, ventas no chão, soltando o seu latido de guerra, e a raposa achou prudente retirar-se. Entardecia. O sol tombava por trás dos cabeços, e era como rosa amarela a emurchecer depois duma batalha de flores. Num outeirinho, a comadre repousou. E, sentada sobre o traseiro, língua de fora, a arfar, por muito 97 tempo esteve deitando contas à vida. Ao longe, as moitas e os casais já se não distinguiam na terra baça. Em baixo, à distância de três ou quatro pedradas de pastor, o fumo das cozinhas trepava direito ao céu, depois derramava-se, parecendo um pinheiro manso, gigantesco, plantado no meio das casas a dar sombra ao povo todo. Era lá o pátio rico onde ficara preso pelo engenho infernal o querido companheiro. E à ideia de que a semelhante hora, enquanto os filhos se consumiam de fome, preparavam-se as galinhas para recolher, papo farto, com os galarozes, as felizardas, sentiu grande ferocidade. Um papagaio cacarejava: ó Rosa, dá cá o pé! Dá cá... Acabrunhada e desesperada, arguta e resoluta, concebeu então um plano temerário. A correr, a correr com quanta ligeireza tinha, afoita e direita como cão que acode de longe ao assobio do dono, meteu para a aldeia. Passou por uns carros a chiar, bois galhudos, tilintantes lavradores à banda: ei lá, moirisco! Levantavam dos campos ranchos de mondadeiras em acesa cantoria: ai!, ó ai! Mas pequenina e à velocidade que levava, jornaleiros, 98 caminhantes, o padre-cura a ler o breviário, o remendão à porta a bater a sola, uma velha a dobar a meada, como era esguia e fugidia, não a viram nem sentiram. Chegou ao pátio, em que o esposo deixara o cadáver: lá andava a criação toda, pesada, anafada, a dar a última bicada para recolher. E entre o peru, pernas de bambu, ruim de carregar, e uma fraca que estava sempre de maus fígados, mata! mata! filou esta pelo pescoço e ala! Avante! Saltou o Minhoto: béu, béu! Pararam os carros. Romperam a gritar os caminheiros, o cura, os cavadores e mondadores. Ergueu-se a velhota da dobadoira a responsá-la ao Mafarrico. O sapateiro largou as formas. E ela, sem torcer rumo, sem largar a presa, veloz como raio, corria sempre a bom correr. 99 100 II NAQUELE dia de Primavera, já noitinha, o bicho-homem veio e emparedou a raposa com os filhos. Emparedou-os tapando muito bem tapadas com pedras e torrões todas as saídas da cova, e armando a ratoeira à entrada principal. Quando se viu cativa, a Salta-Pocinhas não gostou. Pela galeria dentro, até ela, escorria um arzinho de luz, que o céu estava estrelado como o chapéu dos espantalhos nos milharais. E com esse arzinho vinham os bons perfumes de Maio, a macela e a giesta a florir a cada canto, os pinheiros a cheirar a seiva nova, as ervas todas a reverdecer, como se o sol daqueles dias fosse esplêndida e mansíssima ave, ocupada em chocar o grande ovo da Terra. O mocho começou a piar para os penedais: 101 - Que fizeste tu? Que fizeste tu? E a voz do passarolo, a quem sempre tratara como rês de matadoiro, enterneceu-a. Um grilinho, bem perto, pôs-se a musicar: - Sou livre! Sou livre! Sou livre! Depois os ralos nas clareiras e as rãs nos charcos, cantando, diziam: - Vem cá para fora! Vem cá para fora! Não, ela não iria lá para fora, que estava à boca do covil o engenho excomungado, pronto, mal ela tentasse passar, a filá-la ou britar-lhe os rins. Não iria, mas ao desafio que lhe mandavam das selvas, ainda que resoluta e dada à luta, soltou queixume tão alto e magoado que o mocho, o grilo, os ralos, as rãs emudeceram, espavoridos, por muito tempo. Sem tranquilidade, mas também sem temor de maior, a raposa deitou-se. Deitou-se, rolando-se em novelo, o focinho em cima das coxas a fugir ao contacto da terra, e à cautela, dando tempo ao tempo, aguardou... Altas horas, ouviu por cima dela o tentilhão: charriu-chiu-chiu, charriu. Aquela cantiguinha era sinal de paz, e a raposa, pé ante pé, saiu ao corredor, 102 onde, para maior prudência, parou a espreitar, a escutar, a malucar, olhos presos na réstia de lua que entrava pela cova e parecia leite entornado. O passarinho continuava com a serenata, e ela afoitou-se a ir mais longe. Cerca da porta, o chão pareceu-lhe batido, bulido e mais liso do que o deixara. E seu palpite confirmou-se: a armadilha estava ali, surda, manhosa, por baixo duma leve camadinha de terra. Não a via, mas sentia-a atravessada na passagem, com os dentes abertos para ferrar. "Bem, vamos ver as outras portas" - cismou ela. E assim fez. Uma a uma percorreu as saídas falsas, que a cova tinha mais escarpas e contra-escarpas que um castelo dos moiros. Puxou, fossou, esgravatou. Nenhuma se abriu nem deu mostras de ceder. "Paciência - disse para consigo - o único remédio, por agora, é esperar". E, como fosse manhã alta, voltou para junto dos filhos, rabo caído, retorcido como foice, não dizendo muito bem da sorte. Acabara de dar de mamar aos filhos, e pusera-se a ouvir o arraial que lá ia fora, e onde tudo cantava, desde o pisco chilreiro à rola timorata, quando sentiu 103 um rumor suspeito. Era o temível e misterioso bicho-homem. O gigante chegou, parou, resmungou e, depois de passar revista ao terreno para que deitavam as várias saídas da cova, despediu com o seu passo pesado, meditado, martelado de sempre. O inimigo não levantara o engenho, e a raposa não perdeu mais tempo na esperança de que, cansando-se, ele o fizesse ou bicho esparvadiço o viesse chincar. E, sem mais hesitações, procurou romper uma contramina que lhe restituísse a liberdade. Com este propósito percorreu o covil com o olho lampeiro e perdigueiro de bom engenheiro. Examinou por um lado, examinou por outro, até que descobriu uma lura de rato, que não sabia aonde ia dar, se a Ceca, se a Meca, se a França ou Aragança, e pôs logo mãos à obra. Durante quatro dias e quatro 104 noites cavou, rapou, furou. Tomada de desânimo, muitas vezes gemeu, ganiu, latiu. Quando parava, era para resfolgar, beber os ventos, palpitar a extensão que teria de abrir como sapador-mineiro. E volvia a cavar, a rapar, a minar. Na sexta noite, quando tinha já os queixos em sangue, as unhas lascadas, e ainda não luzia o céu pelo buraquinho, veio o bufo para cima das árvores, ao pé da sua porta, gemer, soltar aquele pio triste do lavrador que foi à feira e perdeu os cabanos: Viram bois! Viram bois! Se este ratoneiro quisesse, safava-me da enrascada. Vamos lá ver!" Chegou a Salta-Pocinhas à porta, o mais fora que podia sem pisar o terreno traiçoeiro da armadilha, e ganiu de focinho ao alto: - Ó senhor bufo! senhor bufo! A ave de rapina continuava com a cantilena macarena: - Viram bois!... Viram bois!... - Ó senhor bufo! - tornou ela mais forte. - Senhor bufo!... 105 - Quem chama? - proferiu então a voz desconsolada. - Éa Salta-Pocinhas, meu príncipe, é esta infeliz da sorte! - Então que é? - Que há-de ser, bateu a minha última hora. - Hum, temos velhacaria! - Velhacaria quê, ilustre ave nocturna! Mais hora, menos hora digo adeus ao mundo. - Mas onde está a comadre, que a não vejo? - Estou aqui à boquinha da cova... mesmo à boquinha. - Tropeçou, comadre, tropeçou, e partiu os focinhos!? Dê graças que conserva pulmões para nos buzinar que está com a morte nos gorgomilos! Ah! ah! ah! E o grande rapinante, dando estalos com o bico, voltou à cantilena macarena: - Viram bois!... Viram bois!... - Senhor bufo, por quem é! - gemeu a raposa. - Deixe lá os bois e oiça... - Viram bois! - Por alma de quem lá tem... Lembre-se que 106I ROMANCE DA RAPOSA minha avó e seu ilustríssimo avô estiveram juntinhos e foram amigos na arca de Noé. - Que quer você, sua desenvergonhada? - exclamou o bufo, em tom de cólera. - Pouca cousa... pouca cousa. Vossa Senhoria sabe que há viver e morrer? Sabe, que é senhor de muito entendimento. Pois já que sabe, antes de ir mais adiante, queria que me perdoasse as ofensas, se algumas lhe fiz... - Ofensas suas não tenho, que eu quero menos dares e tomares consigo que as moscas com o picanço. - Embora, deite-me o seu perdão. Também se peca por pensamentos... - Está perdoada! - Bem haja, meu rico senhor, bem haja. Para morrer em paz, só falta que Vossoria me vá chamar o escrivão... - Essa é boa! O escrivão, para quê? - Para fazer o testamento. Tenho esta cova, queria deixá-la a um filho que é mesmo um enjeitado da fortuna... - Está a morrer... Mas que lhe aconteceu? - Que me havia de acontecer!... Quis o mal de 107 meus pecados que ontem, a horas de ceia, descobrisse um galinheiro com o buraco por tapar. Galinheiro de fidalgo, pai da vida, onde cada bico era um pote de enxúndias... - E você entrou lá e passou tudo a fio de espada?... - É como diz o meu bufo. Entrei lá com tanta sorte que nem tossiu homem, nem ladrou cão. Fiz bem? Fiz mal? No outro mundo me tomarão contas. Quer-me parecer que prestei grande serviço à humanidade em libertá-la dum galaroz que nos acordava do sono com tão agudos cocoricós, duma galinha-da-índia, que andava sempre de maus instintos, mata! mata! e até do peru, que, ao ver gente, se encarniçava e praguejava que parecia Belzebu! - Adiante... - Fiz a chacina e tratei de trazer tudo cá para a cova. Trouxe dois coelhos mansos... - Dois coelhos mansos?! Dá-me um, comadrinha, dá-me um? - Ouça a relação. Trouxe dois coelhos mansos, um peru, três galinhas, uma pata, e vinha na quinta viagem com o galo nos dentes quando me saiu pela 108 espádua o bicho-homem e disparou o arcabuz. Alcançou-me um bago de chumbo no coração, estou às portas da morte... - Não ouvi o tiro. - Foi longe, para o povo. E como havia de ouvir se Vossa Senhoria está sempre: Viram bois! Viram bois! - A comadre quer então o escrivão? - Quero, para fazer testamento. - Não conheço tal número... - Homem, não conhece o gato montês, calabrês, miador e furtador? Aquele que fez o testamento do urso Mariana quando o pobrezinho esticou o pernil? Mofa aqui perto... - Vou ver se o descubro. Tenho então um coelho? - Os dois, meu senhor, os dois. Para que os quero eu!? O bufo calou-se um instante e, quando a raposa já o julgava a bater asas para largar, ouviu que lhe dizia: - Olhe lá, comadre, não é intrujice? - Intrujice! Ora essa, como podia isso ser... 109 - Alguma esparrela ao gato bravo... - Qual! Eu sempre tive mais medo dele que ele de mim... Não, é pura verdade. Apanhei o tiro e para aqui me vim arrastando com tanto custo, tanto custo, que nem à cama pude chegar. - Mas fala tão espevitada... - Então, o tiro não foi na língua... - Bem, eu vou chamar o gato bravo. Um coelho está certo...?! - Dois, meu coraçãozinho de oiro, dois. Bateu as asas o passarão balalão e lá foi com olhos de lume, por cima das árvores, procurar o escrivão. E a raposinha ficou à espera, muito quieta, ansiosa e manhosa como nunca. Já começara em suas árias a tutinegra rabirruiva, que desata a trinar um pouco antes do negro melro, quando ouviu as asas do bufo, poisando, e logo a voz lamentosa: - Ó comadre, já morreu? - Ainda não. - Aí vem o escrivão. - Bem haja, meu rico senhor. - Os coelhos? 110 - Que lhos dê o gato montês, já que o meu senhor não quer andar por baixo da terra. Não tardou muito que chegasse o gato bravo, olhos a arder, bigode picado à sovela, com toda a sua cautela. Sentindo-o à boca da cova, irresoluto, gemeu a Salta-Pocinhas: - Benza Deus a quem vem! o senhor gato escrivão? - Em pessoa para a servir. Quer então fazer o testamento? - Sim, meu senhor. - Saia cá para fora... - Não me posso mexer. Estou a dar o último suspiro. - Tem então aí um peru? - Maior que um urubu. - Três galinhas? - Gordas como toninhas. - Uma pata? - Mais manteiguda que a nata. - Um galo? - Pesa como um cavalo. - Dois coelhos? 111 - Os coelhinhos são para o meu amigo bufo, que fez o favor de chamar Vossa Senhoria e, enquanto deu o recado, deixou perder os bois. - Está bem; o resto fica para o velho, em conta do testamento. O gato bravo mirou ainda, mas ante o sossego geral e o tom de lisura da raposa, confiado também na sua força, superior à dela, entrou afoito. Ele a dar segunda passada e, zás-catrapás, a armadilha a filá-lo pelo pescoço. Estrebuchou, mas nem disse uma nem duas. O bufo desarvorou. Ela, sem perder um instante, correu ao ninho. Empurrou dois dos raposotes para a frente, à sapatada, por cima do gato bravo nas vascas da agonia. Tomou o mais fraquinho na boca e despediu-se para nunca mais da cova maldita. Pela mata fora fizeram, então, longa e áspera jornada. Os raposinhos, chupados pela fome, não podiam mexer as pernas. Valeu à mãe raposa apanhar uns abelhões aqui, uma toupeira além, para lhes entreter a debilidade. Longe, já o Sol ia alto, repousaram num espesso e quieto matagal. Havia por debaixo das urgueiras 112 musgo e ervas secas e os raposinhos puderam dormir a bom dormir. Também ela dormiu. Quando acordou, moscas e moscardos dançavam por cima dela uma alegre caninha-verde, e a dança e a música dos insectos levou-a ao agradável sentimento de que readquirira a liberdade. Mas era preciso governar vida, que a fome era negra, e decidiu-se a bater monte. Bem perto dali caçou um lagarto, alapardado ao sol, e levou-o aos filhos. Mais adiante, catrafilou uma noitibó na desova, e tornou atrás com ela. Certa de que podia deitar mais longe, depois daquele almocinho aos cachorros, largou mato fora. Andando, andando, pareceu-lhe ver bulir no meio dumas giestas. Afirmou-se; lá estavam dois olhos muito vivos, muito grandes, fitos para ela, dois olhos pregados no monte de flanela que é o corpo encolhido duma lebre. E que lebrão! Mediavam entre ambas quatro pinchos, dos bons, de maneira que pular para semelhante galga era a mesma coisa que pular para a Lua. Em calcanhares, depois dos sete dias de jejum, era ela a mais forte. O único recurso estava em parlamentar. - Salve-a Deus, amiguinha, salve-a Deus. À sombra? - e a abanar a cauda num trejeito inocente, os olhos a rir, foi-se acercando. A lebre estendeu uma pata, arrebitou as orelhas e respondeu, pronta a furtar-se: - Pare lá, que não me vê mais gorda... Pare lá! A comadre estacou - que remédio! - e no sorriso mais cândido, na voz mais melíflua, proferiu: - Ora lá vem esta minha princesa com as suas birras. Sempre queria saber que mal lhe fiz eu? - A mim, nenhum; mas o traste que você é, sabe-o este mundo e o outro. - O traste que eu sou!? A fugir às línguas desbragadas, professei já num convento; mas nem assim! Se aqui me vê - quer saber? - é que vou convidar o teixugo para guardião. Os bichinhos, todos à uma, metem-se a frades e a freiras. Santa felicidade! - Pois passe de largo e guarde a felicidade. - Passo, passo, mas não quero que ande indisposta comigo. Acabou-se para todo o sempre a vida 114 triste que levava. Agora rezo, durmo, como boa papança que os outros amanham. Já não tenho que me incomodar... O meu único trabalhinho é desfiar o rosário... - Pois reze, que os pecados mais depressa a levariam para o inferno que pedra de arroba parao fundo dum poço. - Esta senhora lebre sempre nasceu muito selvagem. Também há-de entrar para um convento, que lho digo eu... - Com você, nem para o céu. - Ora, há-de entrar! Entraram todos... gatos bravos, toirões, ginetas... o lobo veste hoje o hábito de noviço. Falta lá esta senhora lebre; e faz lá falta, de verdade, que nós ainda não temos madre-abadessa... Acredite, entrou tudo; os próprios cães... Para os soutos, não longe, ouviram-se, naquele momento, ladridos, e ladridos que se aproximavam. - Ouça... chamam-na para o coro... Lá estão a rezar matinas... - exclamou a lebre. E de tendões ágeis pôs-se ao largo, a coberto daqueles dois perigosos inimigos, a raposa matreira e o podengo corredor. 115 A raposa coçou a nuca, deu ao Demo a sua pouca finura e, ante os latidos que soavam mais perto, não achou melhor que enfiar por um brejo dentro. Estava por detrás duns codessos, agachada, alapardada, ouviu tropear ferraduras e falatório de gente. E logo uma onda de rescendores, peles frescas, reses abatidas, lhe afagou a pituitária. Alvoroçado, interessado o seu gosto de rapina, pôs-se de atalaia. E viu passar dois homens com uma azémola à arreata. Pelo balancear do corpo e o babujar das vozes ambos pareciam tomados de vinho. Atrás tropicava impassível o velho asno, ajoujado de cabritos e de borregos que, mortos e presos todos à uma pelos jarretes, se equilibravam, cabeça para baixo, ao longo dos alforges, de permeio com samarras. A raposa, depois de muito admirar aquele aparato, em sua alma astuta rejubilou. Dum pulo esgueirou-se para o mato e, descrevendo breve curva, foi sair aos homens pela frente. E aí, em pleno caminho, estendeu-se ao comprido, e, fechando os olhos e encomendando-se aos santos, esperou. Parolando sempre, meio trôpegos, chegaram os cabreiros ao pé dela... 116 - Ó tio Paulo - disse um, estacando - que... que diacho está aqui no caminho? - Aonde? Ah! é a carcaça dum cão! - Carcaça? Isso é que não é!... Uma aposta, que não é!... - Se não é, parece. Mas pega-lhe, Tónio:.. Tens medo, alma de cântaro velho? Um deles curvou-se, virou-a com o bico do sapato e rompeu em grande galhofa: - É uma raposa! - É uma raposa!... Como raio aqui veio cair a grande velhaca? - Chumbada, cão, velhice, sabe-se lá! Paulo ergueu-a da terra, mirou-a, pô-la à flor das ventas a cheirar: - Está podre. Fede que tresanda! - Talvez se lhe aproveite a pele. Deixe cá ver, tio Paulo. Tónio agarrou o bicho, estudou-o bem dum lado, bem do outro e disse: - Está podre, mas a pele pode ser que escape. Pelo sim, pelo não, vou levá-la. Já não perdemos tudo se pagar o vinho da ceia. 117 - Deus te ouça, amigo. Tónio juntou-lhe pés com a cabeça e, assim rolada, foi metê-la numa das bolsas do alforge. E ambos voltaram a seguir jornada divagando acerca da pele da raposa e coisas de igual entendimento. Muito sorrateira, a raposa desarqueou-se do rolo em que a haviam amarrotado. Desenvolveu os tendões, esgalgou o pescoço. E, dentro da bolsa, em balance, num só pé, a dançar o saricoté, começou a rilhar os fígados dos cordeiros. Rilha que rilha, encheu o estômago esfalfado; a seguir - o caminho era longo e o falar apegadiço - roeu os cordéis que mantinham em aparelho a saborosa carga. Anhos e chibarros espalharam-se no chão a um tempo e o jerico espantou-se. Mas quando os homens voltaram a cabeça, já a Salta-Pocinhas, rabo pimpão, em pendão, abalava através do matagal com o melhor borrego na boca. Nessa noite ao luar, tão claro que caiava a terra, os raposinhos puderam comer da carne tenra e delicada que só vai à mesa do bicho-homem endinheirado. A mãe raposa deu três, quatro voltas sobre o mesmo palmo de cisco, estendeu as mãos e, apoiando em cima delas o focinho, dormiu o sono regalado, que bem ganhara. 118 III PELOS cálculos de mestre Vicente, o corvo, devia comadre raposa, muito trôpega e caduca - se não era a armar à caridade - ir em mais de dez anos. Magra, mais magra que faca de cortar o pão, reumática, a pelar toda, estava bem livre de que a sua samarra pudesse dar um daqueles abafos que as damas deitam ao pescoço, ou a sua cauda espanejador para móveis de luxo e bugigangas finas. No verão, para não morrer de fome, o que lhe valia era a sua astúcia ser cada vez mais sabida e apurada. À flor da terra, nessa quadra do ano, tudo era cantar, cantar. Ela então ia, pé ante pé, tão devagarinho que as areias, se ouvissem, não dariam conta, ia à caça dos grilos que vêm tanger timbales ao sol, 119 dos ralos dados a serenatas, das próprias rãs que não se cansam de pedir um rei do meio dos seus juncais. Lá as galinhas, essas, podiam dormir em paz, que não era ela que iria assaltar as capoeiras; podiam os coelhos sair de suas luras ao pagode, que também não era ela que lhe iria desmanchar a balsa. Dos bichinhos simplórios é que gtirava o manjar breve e delicado. O prato de resistência a terra lho fornecia, a terra, que então põe mesa lauta para o homem e os animais. Quando cada pé de milharal, de pendão ao alto e barbaçudo, parece um Barba-Ruiva em soberbia, nada apreciava como as maçarocas a esbagoarem-se em rebuçados de farinha, leite e mel. Não comia a eito as espigas, não; apenas aquelas que mais gradas se mostrassem; também não as comia vestidas como se vêem na haste, mas depois de as* 120 (Página com extratexto entre a 120 e a 121.) O medo guarda a vinha; quem a não guarda é o espantalho, nem de gaios, nem de pardais, quanto mais da raposa que conhece as artes todas sem passar por Sevilha! A senhor de tanta galhardia, encarrapitado numa perna só, a comadre apresenta os seus cumprimentos no mais airoso salamaleque. (Fim do contratexto) descamisar, operação em que era ainda mais hábil e mais ligeira que as raparigas nas esfolhadas. E voltava sempre a lamber o beiço, que gostoso para ela como o milho em verde nem ginjas, uvas maduras, ou passas caídas ao chão das cerejeiras. Às vezes, no meio do campo, um homem de palha, vestido de farrapos, pelo chapéu deixando passar o céu estrelado, estendia os braços a querer persuadir a gente que era sentinela de truz. Plantara-o ali o cultivador contra a raposa, os gaios e os pardais. E a comadre, que era cortês e bem-educada, não entrava nem saía do campo que não saudasse o espantalho. - Viva o meu catita! Sempre a vigiar, hem? Para ela, assim idosa e acabada, o inverno era o período das vacas magras. Enrolada na toca como um novelo, iludia a fome conservando-se muito quietinha, sem bulir dias e dias. Tomada de torpor, nas pupilas verdes passava-lhe então o mundo e a vida toda com seus prazeres e tristezas. O que mais saudosamente a pungia era a lembrança do seu raposão, pilhado no engenho infernal por uma bela noite de rapina. E, com essa lembrança, recordava as doces horas levadas juntos, as suas 121 núpcias, os seus folguedos na relva orvalhada do rocio da alva, pelas manhãs de sol. Recordava-se então das batidas que davam, em noites de luar, aos matagais, ele pelo mato fora a ladrar, para espantar a caça, ela de emboscada à beirinha das veredas, focinho em riste, em acção de partir a suã aos troteiros e desprevenidos laparotos. Na Primavera remexiam moitas e silvados à cata de ninhos. E era para eles sumo gozo a gemada de dez a quinze ovos de perdiz e petisco delicado os cotovios implumes que, iludidos pelo rocegar dos ramos, abriam enormes bocas vermelhas com seu debrunzinho amarelo. Em expedição, entravam subtilmente nos poviléus e, choupana onde o aldeão dormisse, cão não velasse e as portas andassem escavacadas, era um ar enquanto se punham no poleiro e, zape! as galinhas nem tempo tinham de cacarejar. De cabeça alta, garbosamente, conduziam as vítimas para a paz das brenhas, voltavam a buscar tantas quantas pudessem, satisfazendo depois a gula na carne fresca, com o sangue ainda a correr nas veias. A arrotar de fartos estiravam-se sobre as quatro 122 patas; vagarosamente lambiam o beiço, o colo, as mãos. O focinho, aquele focinho afilado, talhado em malícia pura e sonsice, descaía insensivelmente sobre as luvas, que a saliva anediara. E ali, no afago da sombra, sobre a relva seca ou caruma dos pinhais, dormiam a sesta bem merecida. Tudo isto, horas felizes, horas do Diabo, repassava a Salta-Pocinhas de memória, atormentada com a fome e a tiritar. Além de lhe faltarem as forças, com frios e neves muitos dos bichos, bons de pegar à unha, tinham ido morar para debaixo do solo, e perdizes e coelhos haviam adquirido asa e perna que era vê-los e dizer-lhes adeus. Perdia horas e horas por bosques e devesas à cata de lebre ferida, furtada aos cães, ave chumbada de asa, cadáveres de ratos, de toupeiras, de tudo o que fora vivente e sucumbira. Ia também, de mata em mata, às casas dos outros raposos e animais menos bravios pedir alguma coisinha, sobejos de caça, um osso menos esburgado, pela luz dos olhos. Não raro, o cheiro de carne a apodrecer vinha de longe tentá-la no castelo de Triste-Feia. Era uma 123 aventura com seus riscos e surpresas, mas, embora, ainda que gasta e tropeçona, lá se deixava levar. Porém não punha boca em carne que acusasse indícios de haver sido tocada pelo homem, com medo ao veneno. O faro conduzia-a, quantas vezes, até as abas da aldeia ao banquete farto de vaca, porco ou burro, mortos por moléstia ou acidente e para ali deitados aos cães. De antemão sabia que a cainçalha toda do povo seria a primeira a tirar o ventre de misérias; sabia-o e, pacientemente, por detrás de arbustos ou de parede, esperava que despedissem. Espaço a espaço lá iam retirando, rabo descido, sujos de sangue e vagarosos como magarefes que deixam o matadouro. O último a desaparecer, e ela a voar ao monturo. E na rima de carne flácida, olhos fechados, meia tonta de gozo, devorava. Devorava, umas vezes até mais não poder, outras até que leve ruído - cães vindos de longe ou ainda lobos que apareciam a reclamar o seu quinhão no festim - lhe desse sinal de partir. Acontecia, não raro, serem raposas que chegavam. E então, no meio dos seus, papo untado, o peso 124 dos anos lhe era leve. Ali, à mesa-redonda, abundante, depressa abrandava a sofreguidão dos mais sôfregos. Ah, não era como nos bosques, quando ela, ao topar raposo acocorado por terra, masca que masca na presa, avançava para o felizardo, cabeçuda, mais cabeçuda que jerico, o focinho pedinchão e ávido. Ela a teimar, o raposo a rosnar, não se cansava em sua porfia até o glutão investir com ela a unhas e dentes. Ali, à mesa lauta, tudo se passava em paz e concórdia. Ao fim desses bródios raros, dois raposões metiam-na no meio e lá vinham de braço dado, dançando, cantarolando a Rosa Tirana, a caminho do seu bosque. Que as mais raposas lhe não tinham amor, nem tanto como a linha negra da unha, estava farta de o saber. Ainda que não fosse dar com elas na comezaina, bastava que as procurasse, logo a mais descaradona erguia a mão: - Já o demo da feiticeira aqui vem! Largue! Que tem que cheirar? Apenas se lembravam dela nas precisões. Como ganhara fama de ervanária e curandeira, iam consultá-la, levando-lhe, como óbolo, lebracho, perna de galinha, lagartixas ou cobrinha a palpitar. Com os calores do estio, aconteceu naquele ano vir grande praga de pulgas. A pulga, que dá o pulo na balança e põe-se em França, que agora está a morder o mendigo das estradas e logo ferrada na perna da rainha, invadiu os bosques e ia dando com os animaizinhos doidos. Bem esgadanhavam, bem se coçavam, bem as derretiam à martelada entre os rijos dentes. Cada vez havia mais. Os bichos nas brenhas e debaixo das árvores gemiam, ganiam, latiam ao céu. E, desesperados, muitos se deixaram filar dos cães. Incapazes de lutar com o flagelo, foram então ter com a Salta-Pocinhas. 126 - Venha um por um - respondeu ela aos bichos desatinados - e não esqueçam a esmola. Desde aquele instante, houve formigueiro de animais à sua porta. Chegou primeiro um gineto, amarrotada a sua farda casquilha, cauda nada em cedilha. Trazia um láparo muito gordo e orelhudo. - Amigo - disse ela - vais daqui, sem abrir boca, rumo ao Norte, sempre ao Norte, até encontrares a ribeira. Metes um pedaço de musgo nos dentes e mergulhas na água, deixando só o musgo de fora e quanto basta para respirares. Se fizeres a romaria sem fala e com a ajuda de S. Bento abade, as pulgas fogem para o musgo, largas o musgo à corrente e ficas limpo. O ginete rodou mudo e sério por entre a bicharada, que o crivava de perguntas, rumo ao Norte. Veio depois o toirão, de olhos vermelhos, papa-coelhos. Trazia uma ratazana. E a mezinheira deu-lhe a mesma receita, e mandou-o virar ao Sul, sempre sem fala. E todo o dia e toda a noite -boca fechada, uns para Nascente, outros para Poente, para os lados do vento suão estes, para os lados donde sopra a viração aqueles, a fim de não divulgarem a receita, 127 caso contrário, adeus consulta! - todo o dia e toda a noite lhes deu despacho. É porque, rezam as histórias, as pulgas vão andando, andando debaixo de água até chegarem a sítio onde respirar, o pedacinho de musgo os libertou do importuno insecto que salta para as sedas da fidalguinha do saiote da pobrezinha. E a velha raposa, mezinheira e benzedeira, daquela vez abasteceu a despensa para uma temporada. IV UM domingo, a Salta-Pocinhas faltou ao concerto da uma hora, e logo certa raposa de olho marau e dente de lacrau, chamada Patifina, disse em voz alta: - ó comadres, vocês não querem lá ver A velha Salta-Pocinhas, que não aparece, foi-se desta para melhor. - Que a terra lhe seja leve! - exclamou outra. - Andava na pele e no osso, coitadinha! - Vamos a casa dela; é uma obra de misericórdia sepultar os mortos. Puseram-se as raposas a caminho, à frente Patifina, mestra em rapina e trampolina. Era ainda noite 129 cerrada e o céu parecia uma mortalha negra a envolver a terra. Chegadas que foram a uma antiga mina de água, destas minas que secaram para todo o sempre, e são, meio assapadas e entupidas, o albergue dos animais montesinhos, uma das raposas chamou: - Senhora comadre!... Senhora comadre!... Como ninguém respondesse, despediu mais forte: - Comadre Salta-Pocinhas!!!... O mesmo silêncio; só ao longe, nos açudes, as águas do rio a rezarem, entoarem o cantochão dos defuntos. - Vamos dentro - lembrou uma. E iam resolutas, pós-catrapós, pela mina fora, quando, a uma. voz lamentosa, cavernosa, vinda do fundo negro, se suspenderam todas tremelicantes. - Por quem sois, irmãs, não deis mais um passo! Estou com a peste... Pularam as comadres à retaguarda e, depois de se verem ao ar livre e se consultarem com os olhos, a mais afoita adiantou-se até a boca do subterrâneo e perguntou: - Estás com a peste? 130 - Estou com a peste e não chego à madrugada. Não entrem, que lhes passo a malina... Calaram-se pesarosas as raposas, até que uma tornou: - Bem hajas, comadrinha, bem hajas pelo aviso. Dize-nos agora: qual é a tua última vontade? - Dai-me a beijar carne fresca; afora uma perna de galinha ou uma postinha de carneiro, tudo é vaidade... - Adeus! - Adeus! Foram-se embora as raposas, mas Patifina, mestra em rapina e trampolina, torceu as voltas, desconfiada com aquele bem-d'alma da comadre. E, sem temer o contágio, entrando na mina a furta-passo, foi surpreender a Salta-Pocinhas a contas com o lombo dum anho. - Então isso é que é a peste, sua grande saca de mentiras? - Foi um anjo que me viu a morrer e me trouxe esta hòstiazinha. - Também quero... - Se tens o coração puro, come... Mas vê lá! A Patifina pôs-se, sem vergonha, a manducar e, 131 enquanto enchia o fole, reparou nos montes de ossos que havia pelos cantos, ossos velhos, brancos como a cal, ossos ainda vermelhos de sangue, ossos mal esburgados, tantos que parecia haver ali indústria de cabos de faca e canivete. Ela cogitou: "A velha tem açougue às ordens. Lá como arranja, não sei; mas deixa, mesa de borla já eu tenho!" E foi-se dali, lambendo o beiço, contentíssima. No dia seguinte, à mesma hora, toda pés de lã, sete falinhas doces na boca, dirigiu-se à cova da Salta-Pocinhas. Mal, porém, tinha passado o limiar, deu pulo que nem bicho-homem ao ver uma víbora. O lobo Brutamontes, com os olhos a fuzilar, a dentuça amarela à mostra, largando o chibato em que se banqueteava com a Salta-Pocinhas, avançava para a receber. A velha comadre, desdentada e descarada, à força de rir até chorava. Pôs-se a Patifina a salvo e segunda vez cogitou: "Associou-se a manha com a força; temos a Quadrilha do Olho Vivo". De facto, devido às invernias que não tinham fim e às barrigadas de fome, maiores que invernos, a Salta-Pocinhas decidira-se a ir ter com o lobo, propondo-lhe 132 reatar a aliança que outrora ligara seus pais. O lobo, embora a visse idosa e cansada, tendo em muito apreço o seu engenho e sabedoria, aceitou. Juntos começaram então a bater monte e a praticar a rapinagem. A raposa era matreira, o lobo valente; ela a conceber, ele a executar, nem sempre perderam as passadas. Segundo contam as velhas pelos soalheiros foi numa dessas expedições que os dois meliantes toparam a mulher com o cesto do comer à cabeça e, de apetite alvoroçado, lhe foram no rasto. Era por uma manhã fria e gris, que dava ideia de o mundo andar cingido numa mortalha de penitente. Ainda que a atmosfera assim estivesse fosca, luzia a lua-cheia nas alturas, uma lua-cheia bochechuda, a olhar muito atenta cá para baixo, a Terra, como patroa para a vinha onde traz gente a cavar. - Se nós caçássemos aquele almocinho, compadre!... - suspirou a raposa, sorvendo o rescendor das caçoilas. - Atiramo-nos à mulher... - Não, isso não! - respondeu a raposa, que não fora talhada para grandes andanças. - Bem sabe o 133 compadre que o bicho-homem é colérico e vingativo. Não ouve enxadas aqui perto? Dava a malta sobre nós e punham-nos os ossos num feixe. - Temos boas pernas para fugir... - Tendes boas pernas, compadre, tendes boas pernas. Também já tive. Hoje estão mirradinhas dos anos e dos trabalhos, e não me agrada nada pensar que os cães façam delas flautim. - Pois não se metesse em cavalarias altas! Asno fui eu em esquecer que você tem alma para atacar galinhas, e basta! - Senhor compadre, senhor compadre, muito mais faz quem quer do que quem pode. Fique aí, que vou ver para onde a mulherzinha vai. Entrementes, reze ao pai dos bichos que lhe abrande o mau génio. O lobo quedou entre dois penedos, mal disposto e carrancudo, e a raposa seguiu na pista da mulher. Passante uns bons minutos voltou muito açodada e tão ligeira que dir-se-ia ter arranjado pernas novas. - Compadre! Senhor compadre! - exclamou ela ainda de longe. - Venha cá depressa; a mulher escorregou ali adiante e saltou-lhe um queijo do cesto. - Um queijo? 134 - Sim, senhor, um rico queijo da serra da Estrela. Aquilo chama-se o pedaço dum queijo... - Era pegar-lhe... - Pudesse eu! Mas, compadre, caiu no fundo dum charco. - Se está no fundo dum charco, é fábula. - Qual fábula! Tão certo como vossemecê ser o maioral destes montes. - É grande? - Como a roda dum carro. - Vamos lá ver... Só se perde o tempo... - Chiu! Venha caladinho, que é perto do sítio onde andam os homens a cortar mato - recomendou a raposa, rompendo à frente. Foram andando pela chã fora, ventre cosido à terra, para não serem vistos dos mateiros que trabucavam cerca dali. Em face duma poça de água, tão perto dos homens que se lhes ouviam todas as vozes, e para vê-los ou se fazer ver era só levantar a cabeça, disse a raposa: - Chegue-se adiante e olhe... Chegue-se bem. Viu? - Não; não vejo nada. 35 - Essa é boa! Ele lá estava... Chegou-se a raposa à frente e também não viu o queijo. Não viu o queijo e, de esguelha, olhou para o alto céu donde a Lua se debruçava. Uma nuvem discorria por diante e, avisada, proferiu: - Deixe limpar a água, que se turvou, e vai ver... Passou a nuvem, voltou a espelhar-se na água face estanhada da Lua, e miou a raposa de prazer, apontando o queijo: - Está lá ou não está? Eu seria capaz de lhe mentir!?... - É verdade, lá está, e é de arregalar o olho! Como havemos nós de o safar cá para fora?! Entre lá, comadre... sabe nadar... - Livra, está a água gelada! - Entro eu. - Não caia nessa! Apanha um resfriado que nunca mais se cura em todos os dias da vida... - Então como há-de ser? - Ouça o conselho duma tola e aceite se bem achar. A água não é muita; são duas odradas, se tanto. Se nós a bebêssemos?! Tirávamos, depois, o queijo a seco... 136 - O conselho não seria mau, se fôssemos capazes de tragar o líquido todo. Mas quem sabe? Estou em dizer que não temos pança para tanto. - Eu venho com uma sede danada. A matá-la, vai-se metade. E você, compadre, não traz sede? - Sede não trago, mas a tripa anda vazia.. - Então vamos a ela! Enfiou a raposa o focinho na água e, bufa que bufa, fazia que bebia. Bebia o lobo à valentona e já as ilhargas lhe inchavam. Foi ele o primeiro a erguer a cabeça: - Minga ou não minga? - Mingando vai e bem - respondeu ela. - Outra arremetida, compadre. Abaixe as orelhas, que nos avistam... Repetiram a operação: a raposa fuh-fuh! o lobo glou-glou! glou-glou! até que disse outra vez: - Minga? - Está a secar. Ânimo, valentão dos valentões, ânimo! O lobo, incitado pela velhaca, mergulhou novamente a tromba e engoliu, engoliu água, até que, mais redondo que um cilindro, caiu para a banda, 137 estatelado. Branco, sempre distante, oscilando, o grande queijo da serra da Estrela continuava no fundo. - Ai, comadre, parece que nem gota lhe tirámos! - Cale-se aí, compadre, que ouvem! Não vê o queijo a bulir? Mais uma arrancada e vem à tona. - Já nem me tenho nas pernas... Só se a comadre me ajudar a erguer... A raposa foi-lhe puxar pelo rabo e, impando, escarneceu: - Então que pernas são essas, senhor compadre, galgas a fugir e não podem com água que um burro traz nas cangalhas!? Levado de brio, tornou o lobo à poça; tornou ela a bufar e, quanto mais bufava, mais o queijo mexia. - Veja, veja, está aqui está à superfície. Mais uma pinguinha... - Agora, nem que ao pé do queijo estivessem as ovelhas ou as cabras que deram leite para o coalho! - rosnou ele, deitando-se ao través, mais cheio e mais redondo que barril de meia pipa. - Pois nós o queijo havemos de comê-lo, dê por onde der! - ganiu a raposa. - E o maior quinhão é 138 para você, compadre, que o ganhou. Vou ver se descubro maneira de roubar uma enxada àquela gente para o puxarmos cá para fora. Deu a raposa uns pulos no campo descoberto, encolheu uma perna, e pôs-se a regougar. Regougando e saltando nas três pernas, não andou grandes passos que os mateiros não fizessem reparo nela. E, de vê-la assim manquitola e lastimável, julgando-a presa segura, largaram enxadas e alviões e deitaram a correr e a gritar atrás dela. E vieram quantos ali havia, homens, rapazes e a mulher do almoço. Quando os sentiu disparados, a raposa baixou a quarta perna, que não era mais perra que as outras, e berrou ao lobo espavorido: - Quem tem boas pernas para fugir, foge, que vem sobre nós a cavalaria de Chaves! Lançados em perseguição da raposa, os homens deram com o lobo, pesadão, mais cheio que pato na engorda. Então começou a batida, aqui te apanho, além te agarro, ao lorpa do bandoleiro. E, ocupados com Brutamontes, deixaram a raposa. Vai ela, torceu as veredas e, descrevendo breve rodeio, foi comer o almoço dos mateiros que ninguém guardava. 139 Comeu-lhes um autêntico queijo de ovelha, os chouriços, a carne, e ia em meio da caçoila das papas, quando pressentiu os homens que voltavam. Rabo em leque, lambendo o beiço, sem grande pressa, se esgueirou. Tanto lhe pesava a barriga que, encontrando um coelho na toca, se sentou muito poeticamente a namorá-lo, e mesmo deixou-o partir com um faceto: Olá, amigo! quando ele quis. Satisfeita por ter dado uma lição a Brutamontes, que não se fartava de deitar bazófia acerca das belas gâmbias, e ainda mais por ter papado um rico almoço, acudiu-lhe que o sócio devia estar perto, por aqueles matagais, já que os homens lhe não haviam arrancado a pele. E levada, não só pela curiosidade do que acontecera ao lapuz, como pela ideia de arranjar cavalgadura, pôs-se em cata dele. Não foi demorada a procura. O pobre sendeiro estava escondido num giestal, a arfar, coberto 140 de sangue, dizendo cobras e lagartos da sua má sina. A raposa chegou-se a ele, a manquejar, na voz sumida de quem vai exalar o último suspiro: - Ai, compadre, vieram-me ao fagote. - Do mesmo mal me queixo. Se escapo desta, é por milagre. - Ai! ai! Deram-me tantas, que nem sei como cheguei até aqui. - As pedradas choviam-me no lombo mais bastas que granizo. Antes uma chumbada! E sabe porque me alcançaram? Porque estava bêbado, pesado com aquela maldita água que Deus envenene para todo o sempre. - Pobre compadrinho! - Ah! mas que traz você, comadre, no cachaço? Parecem papas... - Olha papas! São... são os meus ricos miolos, os miolinhos a sair-me da cabeça. Ai eu! Ai eu! - Que infeliz! - Olhe, compadre, temos de nos ir embora. E é já, que às duas por três estão de volta, quem sabe lá se com paus e espingardas, para nos matar... 141 - Vamos lá ver se consigo mexer-me... Ui! ui! - Eu cá nem de rastos - gemeu por sua vez a raposa. - Veja lá... eu amparo-a... - Não posso, por mais que queira. Olhe, deixe-me aqui... deixe-me morrer... - Pois deixo, deixo, que remédio!... - Mas ouça, atrás de mim vão dar consigo... E isso não será a seu gosto. Olhe, senhor compadre, se me pudesse levar às costas... Veja lá, faça um sacrificiozinho... - Tomara eu quem me levasse a mim! - Soou o nosso último dia!! E tanto gemeu a raposa, tanto se carpiu, tão de negro pintou a sorte do lobo, se viessem dar com ela, que o machacaz a carregou ao lombo, dizendo: - Seja em desconto dos meus pecados! E lá ia ele, tropeça aqui, tropeça acolá, e a comadre a trautear: Anda-me raposinha, Gaiteira das gaiteiras, Comeste-las bôs papas E vais às cavaleiras! 142 - Que raio de cantarola é essa? - perguntou o lobo, suspendendo a marcha e de soslaio deitando à zorra um olhar terrível. - Vou a rezar a ladainha dos santos. - Falava em papas? - volveu ele, não dissipadas de todo as suas suspeitas. - Sim, nos santos papas, compadrinho, para que nos guiem a porto de salvação! 144 V Muito desconfiado e já escarmentado, o lobo não quis mais alianças com a Salta-Pocinhas e ela deu-se a mendigar. Altas horas, quando nas aldeias todos dormem e nos bosques regressam os bichos da pilhagem, ia de porta em porta, gemendo e chorando: - Dêem uma febra de carne à pobre velhinha! Dêem, meus ricos senhores! Botava mesmo até a toca do teixugo e do toirão e, como era atrevida, até a furna do lobo, que lhe tinha mais medo da ronha que de um bacamarte. E uns por dó, outros seduzidos pelas lamúrias da meliante 45 bem-falante, lhe davam com que não morrer de fome. Verdade era que nunca acabava o peditório sem apanhar o seu arranhão ou mordedela. Mas encolhia-se, de ar humilde e olhos em terra, oferecendo os maus tratos para penitência das suas culpas. No ofício de mendicante alguns serviços prestava também, como fazer recados e guardar os raposinhos quando os pais tinham de sair. Tomar conta dos cachorros era o emprego que mais lhe quadrava. Além de o cuidado ser leve, em dias de caça sempre havia um naco, migalhas, osso a roer. De quando em quando - era só apanhar os pais distraídos - tirava da boca dos raposinhos a ave tenra ou o lebracho de leite e, em menos de um amém, despachava-os para o seu paiol, que era fundo. Rompiam eles a barregar e logo a ama-seca a acalentá-los: - Dói o dentinho!? Cala, cala, que havemos de ir ao longe!! Senão, deixá-los guinchar que, inocentes e patetas, não sabiam pôr à mostra a calva da velhaca. Mas estas marés da sorte eram raras, conhecida como era em letras e tretas, e nunca a perdendo de olhos os raposões. Cansada de andar ao deus-dará, botou-se a 146 malucar como ver-se livre do atoleiro. Os bichos das capoeiras, quando ela aparecia, coxa e decrépita, em vez de fugir, deitavam às gargalhadas. Na mata, o passaredo punha-se de chacota com ela. Os estorninhos trauteavam: - Quem te vê e quem te viu? Quem te vê e quem te viu?! Os gaios grasnavam zombeteiros: - Descalça e rota! Descalça e rota! E até o pisco e a cotovia, a vê-la e a escarnecerem: - Fugiu-te o riso!... Fugiu-te o riso! Desesperada, maluca de todo, lembrou-se de abrir uma aula para raposinhos. Ali viriam aprender as boas artes da caça e da civilidade como 147 apanhar, depenar e imolar um mocho em três tempos, pôr a unha em qualquer bicho comestível, desde o grilinho de Maio, todo musiqueiro, a um galo galaroz, mais pimpão que o alcaide de Badajoz. Exposta a grande ideia, teve a fortuna de a ver adoptada pelas raposas patriotas daquelas serras. E trataram logo de lhe estabelecer tença e de arranjar casa que se prestasse ao magistério. Uma bela noite, convocados todos os raposinhos em idade escolar, com a presença de seus dignos pais, se inaugurou o curso no meio de grande pompa e regozijo. A Salta-Pocinhas pôs os óculos de tartaruga que roubara a certo botânico quando andava pelo monte a colher plantas para uma caixa de folha, tossiu e, estendendo a mão, pronunciou um discurso, obrigado a este tema: "Depois da canja, a instrução é a primeira necessidade do raposo." Houve música e baile e, como na véspera uma quadrilha tivesse saqueado poleiro farto, toda a noite foi comer e folgar. No dia seguinte começou o curso. Foi objecto da primeira lição os Inimigos da Raposa, que são três: 148 I O inverno rigoroso. II O bicho-homem. III Os cães. E dona professora explicou: I "É o inverno a estação do ano em que a madre-natureza nos veste de bom pelote mas despeja a terra de frutos. Muitos insectos e passarinhos voaram para o céu dos pardais e coelhos e perdizes são diabretes de finura. A raposinha arranjou saia nova, mas se não tem bom abrigo, se não é fina da vista e ligeira do pé, nunca mais torna a ver a Primavera que lhe despe o pelote e lhe enche o fole." II "O homem é aquele bicho de duas pernas que parece que não tem medo de nada e tem medo de tudo, que quer saber tudo e não sabe nada, e por isso é mau, cruel e caprichoso. Inferior a nós na corrida, 149 no faro, e no ardil, inventou para nos combater as armas de fogo, as ratoeiras de ferro e os cães ensinados." III "Os cães - a alguns classificam de sabujos e rafeiros - são para nós, seres livres, os bichos mais justamente odiados do Universo. Sem eles, o homem era um cego à nossa beira, a tocar berimbau. Sem eles, a terra ficava o paraíso dos raposos; dançávamos nas capoeiras e em paz trincaríamos os ossos dos anhos novos. São escravos do homem; o dono bate-lhes, e lambem a mão que os fere; o dono corre-os à pedra, e vão, humildes, no rasto dele. Não há maiores feras para quem não seja o amo. Louvado seja o lobo que, se os pilha a jeito, fá-los em almôndegas." Quis ainda a sábia raposa versar naquele segundo dia o preceito da moral: não regougar em vão, mas os discípulos bocejavam e mandou-os sair. Por ali adiante, na cartilha, foi preleccionando acerca dos outros bichos, as plantas que se comem e as que são nocivas, o tempo e as estações. 150 Mas não tardou que os raposinhos dormissem uns, levassem outros o tempo da aula em brincadeira, e fizessem ainda alguns rasgada chacota das manias da velha mestra. Para os sossegar contava-lhes histórias da carochinha. Ouvindo as bonitas fábulas, os alunos ficavam quietos e caladinhos, mas bastava entrar na matéria do dia para romperem a guinchar, a chalrar, e até os mais desaforados a fazer-lhe piruetas diante do nariz. E em tal chinfrineira se tornou a aula que um dia, estando a mestra a explicar este mandamento da lei: botar o dente só a bicho que se possa comer, os caçadores passaram com as matilhas, ouviram o escarcéu e, cercando a escola, acabou-se tudo. Valeu-lhe a ela, prática na planta do subterrâneo e em esquivar assaltos, esgueirar-se a tempo pela porta da traição. Foi um dia de grande luto naquela mata. Noites e noites os pais raposos uivaram. E dali em diante, atribuindo-lhe a morte dos filhos, a desprezaram como nunca. Meio tonta com a desgraça, de nada valendo pedir, que todos redondamente lhe davam com o não, 151 pôs-se a correr as abas das aldeias onde acontecia haver carcaças de animais. Foi numa dessas excursões que descobriu, pedindo esmola, uns pobres de Cristo da classe do bicho-homem, muito magros e rotos, cego um deles ainda para cúmulo, pois caminhava arrimado ao pau e com o braço direito estendido para as costas do parceiro que ia à frente. De vê-los assim tristes e lazarando, até ela se condoeu e lhes daria esmola, se tivesse que dar. Em face daquele quadro de tanta lástima, um pensamento se formou na sua cabeça, que tinha ainda o miolo todo. E, logo que pôde, lhe deu execução. Passando por um estendedoiro de roupa, levou uma saia. Da quitanda dum algibebe roubou um casaco roto e um lenço. Foi-se à oficina dum tamanqueiro, quando o tamanqueiro tinha ido à feira, e fugiu-lhe com os tamancos que uma velha tinha trazido para encourar. Mal se apanhou com estes atafais todos, vestiu-se de mulher, tendo o cuidado de repuxar a saia para cima, que lhe ficava comprida, e de pôr o lenço em bioco, de modo a esconder o focinho, que nada tinha de cristão. E, assim arreada, saiu à estrada. 151 (Página com extratexto entre a 151 e a 152) Aqui se representa a senhora mestra, à mesa, com os óculos do botânico, mandando que conjugassem o verbo "furtar". Em verdade, nascidos moinantes, de pais ratoneiros, os discípulos sabiam-no de cor e salteado. Tal como o verbo "amar" na escola primária. Onde se prova que até entre os raposos a gramática, asmática, figura no programa. (Fim do extratexto) 152 Passava uma velhota a tanger o seu porquinho, pôs-se ela a gemer em voz cantarolada: - ó minha boa senhora, dê esmola à infeliz! - Donde é, santinha? - perguntou a criatura. - Sou da terra que fica para lá daqueles cerros... Terra triste de fragas e chavascais!... - De lá sou e não a conheço... - Ando há muito pelos mundos de Cristo. A velha levou a mão à cesta, que trazia enfiada no braço, e partiu um pedaço de broa: - Pegue... A raposa estendeu a pata, mas a mulher, mal a pata lhe viu felpuda e com garras, soltou grande berreiro: - Anjo bento! Anjo bento! É o Demo que anda a pedir. Quem acode! Quando tal ouviu, a raposa não esteve com meias medidas e, tirando os tamancos, largou. Lá longe, sentando-se de cansaço num penedinho, deitou contas à pouca sorte: "Precisava de arranjar luvas com que encobrir estas patas, a que o pai dos bichos deitou solas tão macias como borracha que, além de nunca se romperem, 153 não fazem barulho quando marcham, e revestiu de boas polainas para que as não pique o mato. O pai dos bichos lá teve as suas razões; eu também tenho as minhas. Mas, luvas, onde desencantá-las!? Verdade: podia fingir-me decepadinha dos braços e encabar as mãos até os cotovelos! Podia, mas não é prático. Sempre ficaria o raio do focinho, que não muda, ainda que assaltasse o toucador duma menina da moda e o barrasse de cremes e pó de arroz, às pàzadas. Outra vida!" Assim meditando, a raposa levantou do poiso e pôs-se a caminho do bosque. E, de desconsolada que ia, nem se lembrou de despir o trajo mulheril que pusera. Tupa que tupa, já os sinos das aldeias haviam tocado a Trindades, aconteceu-lhe ver um raposo que pegara uma galinhola, e mais por vício do que pela esperança de tomar parte na refeição, devagarinho, pé ante pé, foi-se aproximando. Distante ainda uns bons passos, sem querer fez rolar uma pedrinha, e foi o bastante para o compadre erguer a cabeça e vê-la. E vê-la e largar a presa foi instantâneo. Depois, pernas para que vos quero... nem o Diabo o agarraria. 154 A comadre papou a galinhola, que o ratoneiro mal acabara de depenar, lambeu o beiço, e então se perguntou a que devia tão feliz acidente. E, ao ver aqueles farrapos de bruxa, bateu na testa e soltou um guincho de alegria. Era a eles, a eles apenas, que devia o rico passarolo que manjara. E contente da descoberta, que lhe trazia um gauha-pão, meteu para as brenhas, aos pulinhos, sentindo nascer uma alma nova. 155 156 VI Reinava o terror nos bosques. Não eram as batidas do homem nem as arruaças dos cães que traziam apavorados os animais. Um bicho fantástico, meio gente, meio bruto, vestido como as velhas das aldeias, mas de andar ladino e repentino, não lhes deixava tirar dentada das presas que faziam. Eles a pegarem coelho ou ave, e o mostrengo a saltar com a sua fatiota de muitas cores, boca aberta, esporões desembainhados. Raposas, teixugos, fuinhas e doninhas, toirões e furões, gatos e javalis, conta-se que até o próprio lobo, fugiam ante o papão macacão, E fugiam largando o saboroso coelho, a tenra ave, que tanto lhes custara a caçar e o maldito chamava 157 logo ao estreito. Para maior desnorteamento, umas vezes rompia na vereda dos bosques, outras vezes no mais cerrado das selvas. O grande bandoleiro parecia estar em toda a parte, agachado à espreita, pronto a cair sobre eles, mal deitassem a garra a ser ou coisa que se trincasse. E que remédio senão retirar diante do temível papãozão que possuía o engenho do homem e as manhas dos animais silvestres? Assim perseguidos, andavam na estica, a largar o pêlo, focinho aguçado de ougamento. Na toca, a velha Salta-Pocinhas, a arrotar de farta, cantava: Que chova ou que faça sol, Sempre a raposa enche o fole! Atraída pela cantilena, não raro batia-lhe à porta a lazarar uma das raposas espoliadas: - Estás contente, comadre! O papão, que um raio consuma, não te levou a caçada?... Feliz de ti! - Ai, estou muito doente! Trago umas sezões que não me deixam dormir um bocadinho. Estou muito doente! 158 - Estavas a cantar...!? - A cantar eu? Ai, em que termos está a minha cabeça! É delírio, comadre, é delírio... - Não tens coisinha com que quebre o jejum? - Tomara eu quem me desse uma sede de água. Á-á-á, á-á-á - e punha-se a bater os dentes com as maleitas. Mal a faminta rodava, desejando as melhoras, volvia a cantarolar: Correi, raposinhas duma figa, Correi, pra me encher a barriga! Um dia, na cova grande, à sua porta, sucedeu que dois pais raposos mais a cáfila dos filhos, que eram cinco e já meliantes de se lhes tirar o chapéu, sucedeu que fossem assaltar a capoeira dum doutor e trouxessem bonitos e gordos bicos. Sobre a manhã, ao luar baço, o terreiro, para que dava a toca, estava coberto de penas. Linda tapeçaria! Linda, com manchas brancas dos marrecos alvos de neve, com manchas de oiro dos galarozes de colar e caudas galantes, manchas ruças das galinhas saraivadas e ricas - um opulento balcão de amostras para capacete de general. 159 A velha raposa chegou-se a eles e, com humildade, pediu que se lembrassem dela; ao menos dessem-lhe o galaripo que viera no monte! Mas eles enxotaram-na: - Vá comer onde trabalha! Então, não querem lá ver, esta lesma ninguém a vê na labuta e ainda cobiça o que tanto nos custou a ganhar! Vida, que se faz tarde! A raposa retirou-se gemebunda e entrou em casa, irosa. Vestiu os andrajos, armou-se dum varapau e, quando a choldra, depois de depenar os galináceos, se dispunha à trincadeira, rompeu em grande matinada e vozearia: - Boca! Cerca! São raposas! Quando tal viram e ouviram, os raposos desapareceram uns pela terra dentro, debandaram os outros para o mato. E a velha comadre, de três viagens, arrastou a gorda caçada para a toca. Com esta, muitas surtidas iguais. Às vezes, salteava-a o receio de que o ardil se viesse a descobrir. Cismava, então, na maneira de se tornar útil ou necessária aos seus, em termos que lhe reconhecessem, como a nobre e velha dona, direito a pensão. 160 Mas não atinava com o processo. E continuando a roubar a ladrão, engordava... engordava a olhos vistos a sonsa da comadre... De tempos a tempos, ia à caça. Franga pilhada nas eiras, depois de grande espera por detrás das árvores, caçapo maluquinho, rã cantarina, faziam supor às mais raposas que era honesta e custosa a sua lida. Alarmados com o que se passava, reuniram-se os bichos para deliberar. Compareceram todos, não faltando também a velha Salta-Pocinhas, de peliça nova, o que causou o pasmo e a inveja das comadres. O lobo expôs os motivos da convocatória. Andava 161 um monstro na floresta, espécie de lobisomem ou fantasma parecido, que bifava aos animais toda e qualquer presa que faziam. Os queixosos que se apresentassem e dessem os sinais da aventesma, a fim de melhor poderem estudar os meios de combate. E, um após outro, foram testemunhando: - Traz saia roxa de merino. - Lenço vermelho... - E jaqué... - Mulher não é! - Pelas ventas é felino. - A pata ornada de pêlo. - Que pode ser? que será? A Salta-Pocinhas, que até ali estivera muda, adiantou-se e pediu a palavra. - Tem a palavra a nossa ilustre comadre - disse o lobo. - Chut, recomendo a todos a maior atenção... Muito há a esperar do alto entendimento e da longa experiência da venerável anciã. Calaram-se os bichos e, na sua voz sempre em falsete, depois de agradecer as boas palavras de Sua Senhoria o lobo, disse a raposa: 162 - Anda um papão na floresta, é verdade. Não é homem, nem é bicho, e tem do homem as maldades e dos animais a destreza. Que há-de ser senão praga que veio a estes bosques para castigo dos vossos pecados?! Para vosso castigo, sim, raposas, que deixais morrer à fome a velhinha; teixugos e fuinhas, que sois soberbos para com ela; gatos bravos, que tanto a fazeis sofrer à força de maus tratos; lobo, senhor lobo, que não é nada caridoso nem liberal com a antiga comadrinha!!! - Que é preciso para conjurar o flagelo? - resmungou o velho Brutamontes. - É preciso, antes de mais nada, arrependerem-se de tão negros pecados. Depois que daríeis a quem vos livrasse do monstro? - A quem nos livrasse do monstro, levantaríamos uma estátua, quando morresse... - A estátua para minha avó! Se me assegurais em paz e fartura os últimos dias da vida... que já não pode ser longa, eu vos prometo reduzir o papão comilão a pó, terra, cinza e nada. - Como há-de ser isso? - Bem simples: quem pilhar duas frangas, traz-me 163 uma; quem pilhar uma só, traz-me o peito. Quem caçar dois coelhos, dá-me um; quem caçar um só, dá-me o lombo. Quem pegar um grilo ou moscardo, ou escaravelho, ou abelhão, come-o; quem pegar dois, come-os também; mas quem der com um ninho de perdiz, dá-me metade dos ovos. - E quem não pegar nada? - Quem não pegar nada, pagará multa e é que a primeira caçada em ave dos bosques, ave doméstica, ou ruminante será para mim. Se aceitais, amanhã vos apresentarei morto e bem morto o papão "que veste saia de merino, lenço vermelho e jaqué, de ventas é felino, peludo o pé, e nem bicho nem mulher é". - Como podes tu, velha comadre, dar cabo do monstro, se veio a estas serras para castigo dos nossos pecados? - objectou uma das ginetas, animais que não se fiam em tretas. - Noutros tempos fiz um favor ao pai dos bichos - respondeu em voz melíflua a raposa - e à certa que há-de estar lembrado. Decerto há-de estar lembrado desta sua velha servidora que nunca se deita 164 sem lhe rezar o Bendito. Se aceitais, bem; se não aceitais, o monstro continua à rédea solta...! Depois de demorada disputa, todos juraram à fé de quem eram aceitar o pacto e pagar o tributo da libertação. Ficaram fiadores o lobo, o lontro e o javali. E depois de emprazá-los a que comparecessem, logo que ela os chamasse, à beira da ribeira, onde lhes mostraria o dragão aniquilado, dona Salta-Pocinhas recolheu-se ao covil. Altas horas, quando já não andava vivalma ao sereno, a raposa saiu muito sorrateira e cautelosa com os farrapos, que lhe iam valer velhice farta c descansada, bem embrulhados que se não vissem. Foi a um palheiro, fez um boneco e vestiu-o. E tendo assentado que não há impostura que muito dure, e aquela mais tarde ou mais cedo daria em droga, que semelhante desfecho era o melhor dos desfechos - pois valia-lhe vidinha regalada - foi deitá-lo ao rio, de bruços para não mostrar a tromba. Quando começou a boiar à flor da corrente, a raposa uivou. Vieram os animais todos e, diante do monstro, vestido de saia, lenço e jaqué, que nem bicho nem mulher é, deram graças e levaram a velha 165 comadre em triunfo. E a Salta-Pocinhas viveu ainda anos, farta, mimosa como rainha-mãe, muito querida dos cachorrinhos, a quem contava lindas histórias que começavam deste jeito: Uma vez, tínhamos ido assaltar o poleiro do juiz de paz... FIM 167 Marginália 167 168 Teorias do autor acerca de literatura infantil e dos seus dois livros neste género INQUÉRITO Aquilino Ribeiro publicou para as crianças Romance da Raposa" e "Arca de Noé, 5." classe". - Quais os assuntos que escolhe para os seus livros infantis? - Os meus assuntos vou buscá-los à história natural, racionalizando-os. Nós inventamos, para explicar a mecânica da nossa inteligência, esta palavra mágica: razão. Ao complexo de fenómenos, de que o nosso cérebro é teatro, preside esta espécie de deusa, ou melhor, fada. Que mais não seja é um expoente. Para os animais, o instinto é a origem e faculdade prima dos seus actos. Mas eu, por experiência, tenho verificado que há actos da vida animal, o homem à parte, que superam o âmbito de tal potência. Ora são esses actos que eu transponho, humanizo, no que imagino tais bichos movidos pelos mesmos móbiles vitais que nos animam a nós. A raposa é uma personagem histórica. No romaneinho que escrevi, costeio a sua crónica, o mais livremente e originalmente que posso, não esquecendo as qualidades que lhe são notórias e derivam das condições de luta e dos dons com que a natureza a dotou: ardil, 169 sagacidade, audácia. O meu livro tende a mostrar às crianças a que me dirijo, acima de dez anos, o mecanismo interno da astúcia, um pouco a astúcia de Ulisses, havida, sob determinados aspectos, como boa e sempre admirável, e por extensão a velhacarb. social. Prefiro que se conheça a hipocrisia a que nos surpreenda, tal a víbora, escondida num tufo de ervas ou mesmo de flores, quando pomos o pé. Claro que procurei contar a história de tal vivente pela forma mais amena e empregando tons cor-de-rosa: Esta t A HISTÓRIA DA RAPOSKTA, riXTAEEGRETA, SEXHORA DE 5IUIT TRETA... Na Arca de Noé, que se dirige às crianças a partir dos sete anos, também me ocupei da bicharada, essa que ocupa a 3a classe, o grilo, com a sua caixa de música às costas, o saloio e a saloia, o macaco, o cão, o porco, o coelho, o elefante, o burro, o galucho, a vaca, etc etc - Quando escreve para as crianças, tem a preocupação da idade delas? - Sim, tenho a preocupação da idade, e com isso a das ideias, que expendo, e em grau imediatamente inferior a preocupação do vocabulário. Se escrevêssemos apenas com as palavras que a criança emprega e de que sabe o significado, medíocre seria o nosso modo de expressão. A leitura duma página é um aprendizado. A criança vai-se recreando e aprendendo. Uma palavra que ignora, desde que pertença, bem entendido, ao nosso glossário quotidiano, é um obstáculo que vence penetrando-lhe o sentido por intuição natural. A evolução mental da criança corresponde à evolução mental do homem através das idades, a partir do limbo terciário. 170 - Qual o seu livro infantil que obteve maior êxito? - O meu livro infantil de êxito foi O Romance da Raposa. A Jane Bensaúde devo a honra desvanecedora, embora imerecida, de eonsiderá-lo uma obra-prima. É evidente que a minha personagem tem este encanto: existir, ser conhecida, e eu pôr à vista a sua relojoaria íntima, engenhosa e arteira, e cada criança admirar nela as habilidades da nossa espécie para subsistir e impor-se na natureza, que não tem simpatias especiais para nenhum dos seus seres. Os contos de fadas, a meu ver, representam um perigo, neste nosso mundo de hoje, tão realista. Prefiro predispor as crianças para a vida da luta que para o sonho e a idealidade abstracta, sem ramo em que a ave azul ponha o pé. - Dá-lhe cuidados a escolha do ilustrador - Tive dois ilustradores extraordinários para os meus livros: um, Mestre Benjamin Rabier, francês, o primeiro lápis de todas as grandes revistas parisienses da especialidade, que expressamente fez os desenhos a cores. Custaram uma fortuna ao meu sempre saudoso e querido editor Júlio Monteiro Aillaud. O outro foi um rapazinho a sair da escola, Jorge Matos Chaves, hoje arquitecto ilustre, que pôs na Arca de Noé tudo o que lhe sugeria a sua imaginação fresca, colorida e original. - Que pensa das ilustrações dos seus livros? - Penso muito bem das ilustrações dos meus livros, que suponho sob certos aspectos superiores ao texto. - Qual a finalidade que o move ao escrexer para crianças? - Não tenho uma finalidade objectiva, restrita, visto 171 que o escopo é múltiplo. Mas, em suma, procurei recrear a criança, educando-a moral e socialmente, sem lhe meter na mão os horríveis compêndios de tais disciplinas. Suponho que escrever para as crianças é uma pequena arte, bafejada por um Espírito Santo, pequeno e zombeteiro, que não será benéfico para toda a gente... nem porventura para mim. ENTREVISTA Não conhecíamos Aquilino Ribeiro. Nem de vista. Alguns tantos retratos imprecisos, entrevistos nos frontispícios dos jornais, outro em tela primorosa na recente exposição dum artista de renome, e nada mais. Insuficiente para nos dar o homem na firme proporção da sua personadade. Unilateralmente, esta era-nos projectada apenas pelo vernáculo da sua prosa, incisiva, forte - olor de esteva montesina, chapada gloriosa de sol nas eiras atulhadas, tradução realista da reacção humana perante a vida. E, inevitavelmente, a personalidade do autor do "Jardim das Tormentas", em nossa fantasia, não se podia desarreigar dos atributos da sua obra. Isso e a sua projecção literária intimidavam a nossa sensibilidade. O portão verde da sua casa à Cruz Quebrada aparecen-nos pela frente. Passámos adiante, como se não quiséssemos nada com ele. Passos andados retrocedemos. Para quê tão demorado intróito se o romancista nos esperava? Batemos confiadamente, e, em breve, o ádito da sua casa nos 170 acolheu com a afabilidade de um solar da província portuguesa. Nada daquilo para nós constituía novidade. Era uma página viva de Aquilino, como se tivéssemos aberto, ao acaso, um dos seus livros: "Descida a encosta vamos bater à cancela... É só empurrar, e diante de nós oferece-se o pequenino Canaã, com vinha, pomar, seara, horta e água todo o ano. São três a quatro jeiras de terra, repartidas em calços, de bebedoiro para um riacho que engrossa com o deflúvio do meu agro. Com desvanecida satisfação lobrigo no mainel vasos de serpol e craveiros, indício de mão feminina, delicada". Talvez não fosse bem assim, mas o espírito era este. E a aristocrática fidalguia dos donos da casa acolheu-nos com o imprevisto que causa ver aliadas a simplicidade e a lhaneza ao privilégio ãé um nome que já não pertence ao seu dono, porque entrou com a sua obra para o património espiritual da nação! Desejaríamos modificar o curso banal da entrevista insípida. Mas foi impossível. A primeira pergunta deslizou com a indiscrição de toda a pergunta: - O que pensa V. Ex. da literatura infantil tal como ela está a ser conduzida no nosso país? - Estou pouco ao corrente do que se passa neste sector da vida literária. Mas a avaliar pelas montras dos livreiros e pelos anúncios, temos messe grada. Suponho que há duas ilusões a considerar às espaldas desta actividade: que seja rendosa e que seja tarefa fácil. Quanto a réditos, é uma questão de natureza particular e ninguém tem nada com isso; quanto à elaboração literária, muita gente de bem pode ser induzida a erro, perdendo o ensejo de dar melhor 173 emprego às suas faculdades. Nada mais fácil e impressionável que o cérebro da criança. Tudo o que ali tocou fica assinalado para sempre. Para que povoar-lhe a imaginação com coisas absurdas, com coisas sem graça, com cocas e teias de aranha que entenebrecem o entendimento? - É de opinião que se introduza na literatura infantil o sobrenatural e o maravilhoso, em decalque da forma simples e objectiva como a criança vê a vida? - O maravilhoso desenvolve a imaginação e as faculdades da alma, mas o sobrenatural é um domínio vedado em que é de boa prudência colocar à entrada este cartel: perigo de morte! Bem sei que todos nós tivemos à volta do berço essa farândola negro-salitrosa de bruxas, lobisomens, duendes, diabinhos e almas penadas. Mas não nos custou pouco varrê-la dos nossos sonhos depois de esvaziada do conceito de realidade. - Contudo, o maravilhoso e o sobrenatural... - Bem entendido, que estabeleço distinção entre maravilhoso e sobrenatural, quando os dois mundos se podem reduzir a um só. Seja como for, há o maravilhoso inofensivo e o maravilhoso tóxico. No primeiro instalemos as fadas, as mouras, os gnomos, elfos e anões, em sua maioria importados, que a nossa mitologia infantil é pobrezinha, não é fácil dizer porquê. No segundo, as feiticeiras e os génios maus. Também Anatole France, que escreveu um delicioso livrinho infantil, achava bom que se povoasse o sobrecéu dos berços com divindades risonhas e aladas. Perguntamo-nos se a criança tem necessidade de evasão como as criaturas de idade e batidas pelo uniforme pesadume das coisas. Por minha parte quero crer que o mundo 174 gravita em sonho e mistério. Cada partícula da vida encerra um conto de fadas. Não é preciso inventá-las. Os brinquedos de Nuremberga são de resto tanto mais apreciados pelos meninos quanto melhor reproduzem o real; ursos de feltro, cavalos de pau, pintainhos de lata que andam e vão bicando um imaginável grão de painço. Aquilino Ribeiro levantara-se e falava abrangendo a sala com largas passadas, no seu jeito habitual. Sua esposa, com enternecido sorriso, aprovava-lhe as palavras. Lembrámo-nos da "Abóbora gigante", de "Mestre Grilo", do Ralo com manhas de guerreiro e do resto da bicharada do seu livro para crianças, "Arca de Noé, III classe. Ele traduz bem o pensamento que o seu autor nos confia: - Eu sou um escritor realista, mas nos contos para os pequeninos aprovo e cultivo o simbolismo. - Das três modalidades de literatura, poesia, conto e teatro, qual julga mais apta para prender o espírito da criança, realizando o duplo fim instrutivo e recreativo? - Poesia, conto e teatro são por igual recomendáveis quanto a formar a psique da gente pequenina. A poesia sob a forma de lengalenga: sola, sapato, rei, rainha VÃO AO MAR BUSCAR SARDINHA, etc O Conto: ERA UMA VEZ... simples e claro como arroio da montanha a correr, sem pegos, sem mais profundidade que a que permite ver a areia do fundo, com flores na margem e a sua rã a coaxar, como diversão. O teatro sob a forma de guinhol, o guinhol tosco e informe do tempo do rei que rabiou, com gloe mecânica e moca, numa palavra o teatro dos cinco dedos de que fala o autor do "Petit Pierre" antes de lhes desenhar nas polpas olhos, boca e nariz. A imaginação infantil 175 precisa de campo para se desenvolver à vontade, vagos para preencher segundo a tendência própria, linhas para cobrir a sabor da sua retina. É por isso que o Teatro dei Piccoli na sua perfeição deixa as crianças completamente indiferentes, ao contrário do velho e primário Roberto. Teatro de robertos, Sola sapato, Era uma vez... Onde estão os grandes livros de autores nacionais que, amorosamente e com conhecimento da psicologia infantil, tratem de tão frágeis assuntos? Poucos. E entre esses poucos figuram os do nosso ilustre entrevistado. Quisemos por isso saber: - Quando será a literatura infantil enriquecida com nova obra de V.? - Para os meus dois filhos escrevi: "Romance da Raposa" e "Arca de Noé, III classe", que em dia de Natal meti no sapatinho de cada um. Acabei para estas alegrias puras. Agora só manipulo drogas complexas para as pessoas grandes. Dizia Mme. de Staél: Si vous voulez que je vous aime rendez-moi l'âge des amours. E é o caso pavoroso. Os brinquedos de todas as Quermesses de Paris" eram incaracterísticos no seu significado. E ele foi à sua alma e tirou de lá a forma harmoniosa do melhor brinquedo que ofereceu a seus filhos e a todos os meninos do seu país. Os Nossos Filhos Lília da Fonseca 176 Fim